Por Larissa Demarchi Ribeiro
Instagram: @larissa_demarchi.adv
As eleições chegaram oficialmente às ruas, às redes sociais e, inevitavelmente, também chegarão às empresas.
Conversas durante o café, discussões em grupos de WhatsApp, comentários sobre candidatos e opiniões diferentes entre colegas de trabalho tendem a se tornar cada vez mais frequentes nos próximos meses.
Mas existe uma pergunta importante para o empresário:
Até onde é possível falar de política dentro da empresa sem ultrapassar os limites da lei?
A resposta passa por uma expressão que deverá ganhar bastante destaque durante as Eleições 2026: assédio eleitoral no ambiente de trabalho.
Afinal, o que é assédio eleitoral?
De forma simples, o problema surge quando alguém utiliza sua posição de poder ou influência dentro da relação de trabalho para tentar interferir na liberdade política do trabalhador.
Imagine, por exemplo, um gestor que condiciona benefícios, promoções ou vantagens ao apoio a determinado candidato.
Também podem existir situações mais sutis: pressão reiterada para que empregados declarem em quem irão votar, pedidos de voto acompanhados de constrangimento ou tratamento diferenciado em razão da posição política do trabalhador.
Nesses casos, já não estamos falando simplesmente de uma conversa sobre política.
Estamos falando de uma possível interferência na liberdade de escolha do empregado.
O empresário pode manifestar sua opinião política?
Pode.
Empresários, gestores e empregados possuem liberdade de manifestação e podem ter suas próprias convicções políticas.
O problema não está em ter opinião.
O problema está em utilizar a relação de poder existente dentro da empresa para pressionar ou constranger o trabalhador.
E os funcionários podem falar de política dentro da empresa?
Também podem existir limites.
A liberdade de expressão do empregado não significa que o ambiente de trabalho precise se transformar em espaço permanente de campanha ou discussão política.
A empresa pode estabelecer regras internas razoáveis para preservar o ambiente profissional, evitar conflitos e garantir que as atividades sejam desempenhadas normalmente.
Isso pode envolver orientações sobre utilização dos grupos corporativos, distribuição de materiais, realização de propaganda durante o expediente e comportamentos que prejudiquem a convivência entre os colaboradores.
O cuidado fundamental é que essas regras sejam neutras e aplicadas de maneira uniforme, sem favorecer ou perseguir determinada posição política.
E o grupo de WhatsApp da empresa?
Esse é outro ponto que merece atenção.
Grupos corporativos foram criados para assuntos relacionados ao trabalho.
Permitir que esses espaços se transformem em ambientes de campanha eleitoral pode gerar conflitos desnecessários entre os próprios colaboradores.
Por isso, a empresa pode estabelecer regras claras sobre a finalidade desses canais.
Uma orientação simples pode evitar discussões, constrangimentos e problemas futuros.
O que a empresa deve evitar?
Algumas situações merecem atenção especial:
ameaçar demissão ou redução de benefícios em razão do resultado das eleições;
oferecer vantagens para influenciar o voto;
exigir que funcionários participem de atos políticos;
constranger empregados a revelar em quem pretendem votar;
utilizar reuniões de trabalho para pressionar pela escolha de determinado candidato;
permitir tratamento diferente entre funcionários em razão de suas posições políticas.
O voto é livre e secreto.
A relação de emprego não pode ser utilizada para interferir nessa liberdade.
Prevenção também é estabelecer limites antes do problema
Em período eleitoral, empresas podem adotar uma postura preventiva.
Uma comunicação interna simples pode estabelecer que manifestações políticas pessoais devem respeitar os colegas e não prejudicar o ambiente profissional.
Gestores e líderes também devem receber orientação específica.
Isso porque uma manifestação feita por alguém que ocupa posição de liderança pode ter um peso muito diferente da mesma frase dita entre colegas.
Para o trabalhador, uma “sugestão” do chefe pode facilmente ser interpretada como uma ordem.
A política vai entrar na empresa. O importante é saber como lidar com ela.
Tentar impedir qualquer conversa sobre eleições provavelmente não é o melhor caminho.
Estamos falando de um assunto que faz parte da vida das pessoas e que estará presente diariamente até outubro.
O papel da empresa é estabelecer limites claros, preservar o respeito entre os colaboradores e, principalmente, garantir que nenhuma posição hierárquica seja utilizada para interferir na liberdade política de alguém.
E, em período eleitoral, influência exige responsabilidade.
Mini currículo
Larissa Demarchi Ribeiro é advogada, inscrita na OAB/SP nº 296.477, especialista em Direito do Trabalho Empresarial, com atuação consultiva, preventiva e contenciosa. Auxilia empresas na gestão de riscos jurídicos, implementação de práticas preventivas e fortalecimento da segurança jurídica nas relações de trabalho.



