Por Fabiana Ribeiro
@fabianaribeirodos805
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Quantas vezes seu filho já se dirigiu à você e lhe disse: “Mamãe, olha o que eu desenhei”. E de forma quase que automática vocẽ respondeu: “Que lindo! Muito bem!”. É comum não olharmos para o desenho da criança com certa relevância e significado. Mas, você já se perguntou acerca da importância daquele pequeno papel colorido?
Como arteterapeuta, nos textos publicados nesta coluna, discorro acerca da importância das expressões artísticas para acessar vivẽncias inconscientes e elaborar as mesmas de acordo com as necessidades de nossa psiquê. As crianças, assim como os adultos, por vezes não conseguem explicar com clareza aquilo que sentem, encontrando no brincar, no corpo, nas histórias e no desenho caminhos para expressar experiências que ainda não conseguiram transformar em palavras.
De modo que o desenho infantil não é apenas uma produção estética. Ele faz parte do processo de desenvolvimento e pode constituir uma forma de comunicação, representação e elaboração de experiências. Pesquisas sobre o desenvolvimento gráfico mostram que, desde os primeiros rabiscos, a criança vai atribuindo progressivamente intenção e significado aos seus traços, enquanto suas possibilidades de representação se ampliam com o desenvolvimento cognitivo, motor, perceptivo e emocional.
A infância possui uma maneira específica de comunicar o mundo. A criança brinca, inventa, movimenta-se, canta, constrói histórias e desenha. O desenho pode acompanhar este processo como uma linguagem simbólica por meio da qual ela representa pessoas, lugares, acontecimentos, fantasias e experiências.
Isso não significa que todo desenho esconda um sofrimento, ou que cada elemento produzido possa ser traduzido, pois cada elemento contido no desenho, pode representar algo diferente para cada criança. Sua produção está intrinsecamente atrelada às suas experiências vivenciadas, a sua cultura, as características dos materiais utilizados e pelo seu momento atual.
De modo que os desenhos infantis em avaliação psicológica, são considerados complexos e ambíguos demais para funcionarem como indicadores confiáveis e únicos para servirem de parâmetros emocionais. Todo o contexto vivenciado deve ser considerado.
No entanto, convém ressaltar que os processos e mudanças podem ser observadas de forma clara, objetiva e determinante. Uma criança que habitualmente desenhava brincadeiras, animais e familiares e de repente, passa a produzir repetidas cenas relacionadas a medo, violências, perdas ou isolamento pode estar comunicando alguma experiência que merece ser acolhida e investigada com delicadeza. Neste cenário é importante observar o que há de novo, o que está acontecendo repetidamente, se houve mudanças comportamentais, se a criança está mais retraída, se ocorre medos frequentes ou alterações de sono, alimentação ou rotina escolar, se está evitando determinadas pessoas ou situações ou se ao falar de algum tema em específico apresenta sofrimento. Todas estas informações atreladas às alterações no desenho em relação ao uso de cores e aos símbolos trazidos, podem ser indicativos de sofrimento psíquico.
Desta forma, o desenho pode ser usado como uma ferramenta para desencadear uma conversa com a pergunta inicial: “Me conta sobre o seu desenho”. Deste modo, estamos criando condições para que a criança nos conte sobre seus anseios e emoções, e à partir da narrativa, outras perguntas podem ser inseridas, caso percebam a necessidade. Como por exemplo, o por que do uso de uma determinada cor em detrimento de outras, e outros questionamentos.
O processo de criação também deve ser considerado, nele a criança experimenta e se expressa, através dos materiais utilizados.
É justamente nesse território de expressão que a Arteterapia encontra um campo extremamente rico, pois na arteterapia a produção artística não precisa nascer da preocupação com o “desenho perfeito”. O foco está na experiência criativa, no processo, na relação estabelecida com os materiais e na possibilidade de expressão e elaboração dentro de um espaço terapêutico.
Revisões sistemáticas apontam que intervenções de Arteterapia com crianças e adolescentes utilizando diferentes materiais, técnicas e propostas, favorecem a expressão, comunicação, consciência emocional e outros aspectos psicossociais, apresentando resultados positivos relacionados à expressão emocional, comunicação, autorregulação e redução de determinados sintomas. Considerando a arte muito mais que uma atividade para ocupar o tempo das crianças e sim uma ferramenta extremamente significativa de encontro com a voz interior, as emoções e os sentimentos.
Aos pais cabe, incentivar a criação artística, oferecendo às crianças materiais para desenharem livremente, evitar corrigir ou exigir estética, demonstrar interesse pela produção da criança, perguntar sobre a história criada pela criança ao desenhar, observar mudanças persistentes em seus temas e comportamentos, evitar interpretações prontas, respeitar quando a criança não quiser falar, guardar algumas produções para acompanhar seu percurso ao longo do tempo, procurar ajuda profissional quando tiver sinais persistentes de sofrimento e evitar realizar comparações entre o desenho de uma criança e outra.
E quando perceberem convergência de sinais, nos aspectos comportamentais que já foram citados no corpo do texto, é importante procurar o auxílio de um profissional, e o desenho deve ser utilizado para a compreensão do caso. Ressaltando que a presença e a escuta são fundamentais nestes aspectos.
“Antes de interpretar o desenho de uma criança, precisamos aprender a escutar a criança que desenhou”.
Fabiana Ribeiro, Pedagoga, Psicopedagoga, Arteterapeuta, pós graduanda em Ludicidade e Artes, Psicologia Ativa, gestão de pessoas e saúde no trabalho, Análise do Comportamento ABA e graduanda em Terapia Ocupacional, professora na Rede Municipal de Cotia, radialista, palestrante e apresentadora de Podcast, entre Elas e Saberes da na tv digital Rede Tríade TV.



