Por Bia Rossatti
Terapeuta Sistêmica
@biarossattiterapeuta
Todo casal briga.
Mesmo relacionamentos que parecem equilibrados passam por momentos de irritação, discordância, frustração e conflito. Afinal, duas pessoas diferentes, com histórias, expectativas, necessidades e formas de enxergar a vida diferentes, inevitavelmente vão se desencontrar em alguns momentos.
Mas o que acontece de verdade, emocionalmente dentro dessa briga?
Uma pesquisa recente publicada na revista Family Process ajuda a olhar para essa questão por outro ângulo. O estudo acompanhou 174 casais durante as primeiras oito sessões de terapia e investigou a relação entre dificuldades de regulação emocional e a evolução da satisfação conjugal.
O conceito de regulação emocional pode parecer complicado, mas, na prática, ele está presente em situações muito comuns dentro de um relacionamento.
É conseguir perceber o que está sentindo. Conseguir lidar com essa emoção sem ser completamente dominado por ela. Conseguir pensar antes de reagir. E, principalmente, conseguir permanecer em contato com o outro mesmo quando alguma coisa dentro de você está doendo.
Quando a emoção assume o comando
Imagine uma discussão que começa com uma situação aparentemente simples. Um dos parceiros chega mais tarde em casa. O outro pergunta: — Você não poderia ter avisado?
Mas aquela pergunta talvez não carregue apenas uma pergunta. Pode carregar medo. Pode carregar sensação de abandono. Pode carregar experiências anteriores. Pode carregar a impressão de que o outro não se importa. E, quando a emoção aumenta, a conversa pode rapidamente deixar de ser sobre o atraso.
Surge a acusação: — Você nunca pensa em mim.
O outro responde: — Você reclama de tudo.
E, em poucos minutos, os dois já estão discutindo sobre dez anos de relacionamento. É nesse momento que o conflito deixa de ser apenas sobre o acontecimento que o iniciou. A emoção começa a conduzir a conversa.
Nem sempre estamos reagindo ao que aconteceu
Uma das dificuldades dos relacionamentos é que nem sempre reagimos apenas ao comportamento do parceiro. Reagimos também ao significado que damos a esse comportamento. Uma mensagem que não foi respondida pode ser interpretada como falta de interesse.
Um silêncio pode ser entendido como desprezo. Uma crítica pode ser recebida como rejeição. Uma tentativa de aproximação pode ser percebida como cobrança.
O fato é um. Mas a experiência emocional pode ser completamente diferente para cada pessoa.
Por isso, em terapia de casal, não basta perguntar somente: “O que aconteceu?” É preciso investigar: “O que isso significou para você?” E também: “O que aconteceu dentro de você quando isso aconteceu?”
O casal pode entrar em um ciclo
Quando as emoções não são reconhecidas ou reguladas, o casal pode desenvolver um ciclo repetitivo. Um reclama. O outro se defende. Quanto mais um insiste, mais o outro se afasta. Quanto mais o outro se afasta, maior fica a sensação de abandono.
E quanto maior essa sensação, maior pode ser a cobrança.
Assim, os dois passam a acreditar que o problema está exclusivamente no comportamento do parceiro. Ela pensa: “Se ele mudasse, eu ficaria bem.” Ele pensa: “Se ela parasse de cobrar, eu conseguiria me aproximar.”
E o ciclo continua.
A terapia de casal pode ajudar justamente a identificar esse padrão e compreender como cada um participa dele.
Não para encontrar um culpado.
Mas para interromper uma dinâmica que está machucando os dois.
Regular emoção não significa engolir o que você sente
É importante fazer uma distinção. Regulação emocional não significa ficar calado.
Não significa aceitar desrespeito. Não significa fingir que nada aconteceu. E muito menos significa que uma pessoa deve controlar suas emoções para preservar uma relação a qualquer custo.
Regular uma emoção é conseguir sentir sem permitir que aquele sentimento determine automaticamente o próximo comportamento.
Você pode estar com raiva e ainda escolher como conversar. Pode estar magoada e ainda conseguir explicar o que precisa. Pode sentir medo e ainda perguntar, em vez de acusar. Pode discordar sem transformar a diferença em uma ameaça ao relacionamento.
Essa capacidade muda a qualidade da conversa.
O que podemos aprender com essa pesquisa?
O estudo não significa que toda crise conjugal seja causada por dificuldades de regulação emocional. Nem permite concluir que trabalhar emoções, sozinho, resolverá todos os problemas de um casal.
A pesquisa faz parte de um campo maior que procura compreender quais fatores estão relacionados à evolução da satisfação conjugal durante a terapia. Mas ela ajuda a reforçar uma ideia importante: não é apenas o conflito que importa. É a maneira como o casal entra, permanece e sai dele.
Dois casais podem ter a mesma discussão. Um consegue conversar, ouvir, reparar e voltar a se conectar. O outro entra em um ciclo de ataque, defesa, afastamento e ressentimento.
O assunto pode ser parecido. A dinâmica emocional é diferente.
Talvez a pergunta precise mudar
Quando um casal chega ao consultório dizendo: “A gente briga por tudo.”
Talvez a primeira pergunta não precise ser: “Sobre o que vocês brigam?” Pode ser:
“O que acontece com vocês quando vocês brigam?”
Quem ataca? Quem se cala? Quem se afasta? Quem tenta controlar? Quem sente medo? Quem se sente rejeitado? Quem precisa ser ouvido? E, principalmente: o que cada um faz que acaba alimentando o comportamento do outro?
Porque, muitas vezes, o casal não está preso apenas ao problema. Está preso ao ciclo que se forma entre os dois. E compreender esse ciclo pode ser o primeiro passo para começar a mudá-lo.
Quando ainda existe espaço para reconstruir
Nem todo conflito significa que uma relação chegou ao fim. Mas conflitos repetitivos, distanciamento emocional e perda de conexão merecem atenção.
Quanto antes o casal consegue perceber que está preso em um padrão, maiores podem ser as possibilidades de trabalhar essa dinâmica de maneira consciente.
E, às vezes, a pergunta mais importante não é: “Quem está certo?”
É: “O que está acontecendo entre nós?”
Essa mudança de pergunta pode abrir espaço para uma conversa completamente diferente. Porque um relacionamento não é construído apenas pelos momentos em que os dois concordam. Ele também é construído pela maneira como conseguem atravessar aquilo em que discordam.
Fonte científica
O artigo de referência é o estudo publicado na revista Family Process, que investigou a relação entre dificuldades de regulação emocional e mudanças na satisfação conjugal ao longo das primeiras sessões de terapia de casal, acompanhando 174 casais.
Fonte: Family Process — Wiley Online Library.
Bia Rossatti
Terapeuta Sistêmica – Autora de Depois do Divórcio — A Rota da Cura



