*Por Carla Perin
@cacaperin
Existem animais que parecem ter uma missão silenciosa dentro da família.
São aqueles cães que percebem quando alguém está triste e imediatamente se aproximam. Aqueles que tentam acalmar conflitos, permanecem atentos aos movimentos da casa e parecem carregar uma preocupação constante com tudo o que acontece ao seu redor. À primeira vista, costumamos chamá-los de carinhosos, sensíveis ou extremamente conectados aos seus tutores. Mas será que existe algo mais profundo por trás desse comportamento? Na visão da Medicina Veterinária Sistêmica, muitas vezes existe.
Quando o animal assume um papel que não é dele
Todo sistema familiar possui uma dinâmica própria. Existem momentos de alegria, mas também períodos de perdas, conflitos, separações, doenças e dificuldades emocionais. Os animais vivem mergulhados nesse campo emocional. Eles observam, sentem e respondem ao ambiente de maneiras que nem sempre percebemos. Alguns pets acabam assumindo, de forma inconsciente, uma função de sustentação emocional da família. Passam a vigiar o ambiente, a monitorar o estado emocional dos tutores e a se colocar constantemente em prontidão. Como se precisassem garantir que tudo fique bem.
O cuidador invisível
Em muitos lares encontramos aquele animal que parece não descansar completamente. Ele acompanha todos os movimentos da casa. Segue o tutor de um cômodo para outro. Interrompe o próprio descanso para verificar onde todos estão. Permanece atento aos mínimos sinais de mudança emocional. Sob o olhar sistêmico, podemos compreender esse comportamento como uma tentativa de cuidar do sistema. Mas existe uma questão importante , nenhum animal deveria carregar essa responsabilidade.
Uma dinâmica que também existe nos humanos
Curiosamente, essa mesma dinâmica é observada em muitas pessoas. Existem crianças que crescem acreditando que precisam cuidar dos pais, evitar conflitos, manter a família unida ou proteger todos ao seu redor. Aprendem muito cedo a olhar para as necessidades dos outros e pouco para as próprias necessidades. Com o tempo, tornam-se adultos que carregam o peso do mundo nas costas. Adultos que acreditam que amar significa salvar. Que pertencer significa se sacrificar. Que ser aceito exige abrir mão de si mesmo. Muitas vezes, encontramos essa mesma energia refletida em alguns animais.
Quando o amor vira sobrecarga
Os animais são naturalmente empáticos. Eles criam vínculos profundos com seus tutores. Mas existe uma diferença entre amar e assumir responsabilidades que pertencem aos humanos. Quando um pet passa a carregar emocionalmente o sistema familiar, podem surgir sinais como: ansiedade de separação, hipervigilância ,dificuldade de relaxar ,dependência emocional ,agitação constante ,comportamentos compulsivos. O animal não está “errado”. Ele está apenas tentando cumprir uma função que não lhe pertence.
O que esse animal está nos ensinando?
Talvez esses animais estejam nos convidando a olhar para algo muito maior do que eles próprios. Talvez estejam nos mostrando o quanto também carregamos responsabilidades excessivas. O quanto tentamos resolver problemas que não são nossos. O quanto acreditamos que precisamos sustentar todos ao redor. O animal torna visível aquilo que o sistema ainda não conseguiu reconhecer.
O alívio que vem quando cada um ocupa o seu lugar
Na visão sistêmica, a cura começa quando cada membro retorna ao seu lugar. O tutor assume as responsabilidades de adulto. O animal retorna ao seu papel de animal. Não como alguém que sustenta a família, mas como alguém que pertence a ela. Quando essa ordem é respeitada, algo se transforma. O ambiente fica mais leve. O vínculo se torna mais saudável. E o animal já não precisa carregar um peso que nunca foi seu.
Uma reflexão para todos nós
Talvez a grande pergunta não seja apenas, “O meu animal está tentando cuidar de mim? “Mas também, em quantos momentos da minha vida eu tentei cuidar de todos e esqueci de cuidar de mim? Os animais frequentemente nos mostram aquilo que precisamos aprender. E talvez uma das lições mais importantes seja esta, não precisamos carregar o mundo para merecer amor.
Nem nós.
Nem eles.
*Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais.



