Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
Quantas horas por semana você trabalha… por dentro?
Não falo só de metas, reuniões e entregas. Falo das horas em que você engole o choro para não “pegar mal”, diz “sim” com medo de desagradar, finge que está tudo bem, se compara e se sente menor. Esse turno invisível também é trabalho: trabalho emocional.
No Dia do Trabalhador, eu quero olhar para esse lado esquecido da história: o esforço de sustentar a própria vida emocional num mundo que muitas vezes pede que a gente sinta menos, reclame menos, questione menos.
Crescemos ouvindo que o forte é quem aguenta tudo. Aos poucos, fomos aprendendo que cansaço é drama, angústia é frescura, medo é fraqueza, tristeza é ingratidão. Alguém diz “estou exausto” e recebe de volta um “ainda bem que tem emprego”. Como se, por ter trabalho, perdesse o direito de sofrer com ele. Assim, vamos desconfiando das nossas emoções e, sem perceber, entregando a chave da nossa autonomia afetiva.
Quando falo em autonomia afetiva, não estou falando de ser frio ou blindado. Estou falando de algo mais simples e mais honesto: conseguir reconhecer o que sinto, assumir isso para mim e escolher, com alguma liberdade, o que faço a partir daí. Não controlo o que sinto, mas posso deixar de ser refém disso — e, principalmente, deixar de ser refém do olhar do outro sobre o que eu deveria sentir.
No mundo do trabalho, não vendemos só tempo: muitas vezes oferecemos autoestima, identidade, valor. Se tudo vai bem, eu me sinto competente; se algo falha, me sinto um desastre. A luta por condições dignas de trabalho também é, no fundo, uma luta por dignidade psíquica. Não adianta ter salário e férias se, por dentro, vivo me tratando como um chefe abusivo.
Pensa comigo: dentro de você existe uma espécie de empresa interna. Você é o chefe que cobra, o funcionário que executa, o RH que acolhe (ou não), o juiz que julga. Muitas vezes esse “chefe interno” grita, chama de burro, diz que você nunca é suficiente. O “RH interno” desqualifica o sofrimento: “isso é frescura”. O “juiz interno” só condena. Se essa empresa tratasse um funcionário como você se trata, seria caso para processo trabalhista.
Ao mesmo tempo, vamos terceirizando nossa vida emocional: deixamos que o chefe diga se somos competentes, que o outro diga se temos valor, que as redes decidam se somos interessantes. A autonomia começa quando, por dentro, você começa a dizer: eu posso ouvir, considerar, aprender… mas quem decide o que faço com o que sinto sou eu.
Em homenagem ao Dia do Trabalhador, gosto de pensar a autonomia afetiva como uma série de pequenos direitos internos. O direito a um intervalo emocional: não responder tudo na hora, poder dizer “eu preciso pensar”. O direito de sentir antes de explicar: reconhecer “estou triste”, “estou irritado” sem se xingar por isso. O direito de não ser produtivo o tempo todo, sem se confundir com o próprio desempenho. O direito de dizer “não” sem escrever um longo texto justificando. O direito à dúvida: não saber ainda o que quer, e isso não ser prova de fracasso.
Autonomia afetiva não é solidão. Não é “não preciso de ninguém”. É justamente o contrário: poder pedir ajuda sem se sentir menor, poder dizer “não estou bem” sem vergonha. Assim como no trabalho ninguém constrói nada completamente sozinho, no mundo interno também não. Terapia, boas conversas, espaços de escuta são formas de fortalecer, e não de roubar, a sua autonomia.
Eu também quero homenagear o trabalhador invisível dentro de você: aquele que, cansado, continua tentando; que pensa em desistir, mas ainda assim levanta; que começou, meio trêmulo, a dizer alguns “nãos”; que às vezes admite, mesmo em silêncio, “eu não estou bem”. Isso também é trabalho. Trabalho afetivo. E talvez seja o mais decisivo de todos.
Te deixo um convite simples: em algum momento, faça um pequeno “dia do trabalhador interno”. Pergunte a si mesmo, com honestidade: onde tenho me explorado emocionalmente? Em que ponto tenho trabalhado contra mim? Que pequeno direito interno eu posso começar a reivindicar hoje?
Se o Dia do Trabalho nos lembra da importância de condições justas por fora, que também nos inspire a buscar condições mais humanas por dentro. Porque você é, ao mesmo tempo, o trabalhador e o território. E talvez a grande conquista seja essa: não apenas trabalhar para viver, mas aprender a viver sem se abandonar no trabalho — nem no mundo, nem dentro de si.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



