Por Valquíria Gomes da Silva
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Existe uma contradição que vejo com frequência no escritório: mulheres que viveram anos ao lado de homens irresponsáveis, ausentes ou que pouco assumiam as responsabilidades da casa e dos filhos, mas que, depois da separação, acreditam que eles passarão a agir de maneira diferente.
Durante o relacionamento, ela precisava cobrar. Depois da separação, acredita que não precisará mais. Acredita que ele pagará a pensão porque prometeu. Que buscará os filhos no horário combinado. Que dividirá as despesas porque “é obrigação dele”. Que cumprirá o acordo verbal porque, afinal, ele é o pai.
E talvez cumpra. O problema é construir a segurança dos filhos com base em um “talvez”.
Não estou dizendo que todo término precisa se transformar em uma guerra judicial. Quando os pais conseguem estabelecer acordos saudáveis, isso deve ser valorizado. Mas manter uma relação respeitosa com o ex não significa depender exclusivamente da boa vontade dele para questões essenciais.
Se durante o relacionamento você precisava lembrar constantemente das contas, das consultas médicas, das reuniões escolares e das necessidades dos filhos, por que acreditar que a separação fará nascer uma responsabilidade que antes não existia?
A separação encerra a relação conjugal. Ela não cria responsabilidade parental. Por isso, guarda, residência dos filhos, convivência e pensão alimentícia não deveriam permanecer indefinidamente no campo do “a gente combinou”.
Enquanto tudo funciona, o combinado parece suficiente. O problema aparece quando ele deixa de cumprir.
É quando começam frases como: “Este mês eu não consigo pagar;” “Depois eu acerto;” “Vou pagar menos porque estou apertado;” “Se você entrar na Justiça, não ajudo com mais nada.”
E aquela mulher que evitou formalizar justamente para não criar conflito percebe que deixou questões fundamentais da vida dos filhos dependentes de uma relação que já havia demonstrado ser instável. Formalizar não significa desejar conflito. Significa estabelecer limites e segurança.
Existe ainda uma diferença importante entre esperança e segurança. Você pode acreditar que ele será um pai mais presente. Pode desejar que amadureça e passe a cumprir espontaneamente suas responsabilidades. Pode, inclusive, construir uma relação parental respeitosa depois da separação.
Mas não precisa organizar a vida dos seus filhos como se essa mudança já tivesse acontecido. Talvez essa seja uma das lições mais difíceis depois do fim de uma relação: parar de tomar decisões considerando o homem que você espera que ele se torne e começar a considerar o homem que ele já demonstrou ser.
Se ele cumprir suas responsabilidades, ótimo. A formalização não impedirá isso. Mas, se não cumprir, você terá instrumentos para exigir aquilo que não deveria depender de promessa ou favor.
Depois de viver o caos, confiar novamente pode parecer maturidade. Mas maturidade também é compreender que promessa não é garantia — principalmente quando os direitos dos seus filhos estão envolvidos.



