Por Valquíria Gomes da Silva
@valquiriagomes.adv
“Dra., eu aguento mais um pouco. Tenho medo de me separar e meu filho perder tudo.” Uma frase que escuto com muita frequência no escritório.
Muitas mulheres receiam que, após o divórcio, os filhos precisem mudar de escola, deixar o condomínio onde moram, trocar de bairro ou abrir mão de atividades que sempre fizeram parte da sua rotina.
Porém, existe um medo ainda maior escondido por trás dessa preocupação. O medo de ser responsabilizada pela tristeza dos filhos, o medo de que a criança sinta falta do pai dentro de casa e o medo de começar tudo de novo.
Como advogada especialista em Direito de Família, posso afirmar que inúmeras mulheres permanecem em casamentos infelizes, abusivos ou completamente desgastados por acreditarem que estão protegendo os filhos. Elas suportam humilhações, traições, agressões psicológicas e até violência física para preservar uma estabilidade que, muitas vezes, já não existe.
Mas será que permanecer em um ambiente de conflitos realmente protege uma criança? Essa é uma reflexão importante.
Os filhos não precisam de uma casa grande. Precisam de um lar seguro.
Não precisam de pais casados a qualquer custo. Precisam de adultos emocionalmente saudáveis e não precisam crescer acreditando que gritos, humilhações, silêncio e desrespeito fazem parte de um relacionamento normal.
É evidente que o divórcio provoca mudanças e será necessário reorganizar a vida financeira de todos os envolvidos. Talvez a escola precise ser revista, o padrão de vida seja ajustado ou alguns planos precisem ser adiados. Mas, é preciso lembrar que a lei prevê mecanismos jurídicos para minimizar tais impactos.
Os filhos têm direito à pensão alimentícia, que deve ser fixada de acordo com suas necessidades e com a capacidade financeira dos pais. Ambos continuam responsáveis pelo sustento, educação, saúde e desenvolvimento dos filhos ou incapazes, independentemente do fim do casamento.
O dever de cuidar dos filhos não termina com o divórcio. Mas, muitas mães acreditam que, ao se separarem, ficarão completamente sozinhas para arcar com todas as despesas. Existem instrumentos jurídicos para exigir que cada pai e cada mãe contribuam de forma proporcional às suas possibilidades.
Vale ressaltar que qualidade de vida não se resume ao patrimônio. Porque a criança pode morar em uma casa confortável e, ainda assim, crescer em um ambiente marcado por medo, brigas constantes e violências. Da mesma forma, pode viver em uma casa mais simples, porém cercada de afeto, respeito e paz, o que lhe oferecerá desenvolvimento saudável.
Os filhos observam muito mais do que imaginamos e aprendem como um casal deve se tratar observando os pais. Aprendem sobre respeito, diálogo, limites e amor dentro de casa, o que não é possível em um lar disfuncional.
Como advogada familiarista, acompanho histórias de mulheres que passaram anos adiando o divórcio “por causa dos filhos”. E, quando passa, muitas voltam ao escritório para dizer algo que sempre me emociona: “Dra., meu filho está mais tranquilo.” É porque, muitas vezes, o sofrimento da criança não era provocado pela separação, mas pelo ambiente em que ela vivia antes dela.
Existe um princípio que nunca deve ser esquecido: o melhor interesse da criança. Esse princípio orienta todas as decisões do Direito de Família e deve orientar também as decisões dos próprios pais. Permanecer em um relacionamento apenas pelo medo da mudança financeira nem sempre representa a melhor escolha para os filhos. Separar-se exige coragem, reorganizar a vida, reconstruir planos e enfrentar inseguranças. Mas também pode representar o início de uma nova história para toda a família.



