Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
Eu sei que, quando a Copa do Mundo começa, alguma coisa em nós muda de lugar. De repente, a gente marca compromisso pelo horário do jogo, discute escalação como se estivesse no vestiário, sente o peito acelerar como se o nosso coração estivesse amarrado na trave. E é bonito, sabe? Tem um encanto real em perceber que eu e você, tão diferentes, podemos nos encontrar na mesma vibração, no mesmo grito de gol. Mas é aqui que eu quero te convidar a uma pergunta que talvez ninguém faça enquanto a bola está rolando: até onde eu consigo torcer sem me perder no outro?
Eu gosto da ideia de pertencimento, desse “nós” que se forma na calçada, no sofá, no bar, na sala de casa. Pertencer é quase um abraço coletivo, um lembrete de que a vida não é só boleto e notificação. Quando a seleção entra em campo, tem um pedaço de nós entrando junto. Mas, sem perceber, às vezes esse “nós” começa a ficar grande demais, e o “eu” vai encolhendo quietinho no canto. É quando o humor do meu dia inteiro depende de um resultado, quando eu trato quem torce diferente de mim como inimigo, quando eu finjo uma empolgação que não sinto, só para não ser o único da roda que não está vibrando. Aí não é mais torcida, é desaparecimento. E autonomia emocional tem muito a ver com isso: com não se deixar desaparecer, mesmo quando o mundo te puxa para dentro de um coro.
Eu posso amar a festa, o hino, as cores, a narrativa do “é agora ou nunca”, sem entregar a minha identidade inteira para isso. Eu posso fazer parte do grupo sem esquecer de mim. É como estar num coro e, ainda assim, reconhecer a minha própria voz. Torcer sem me perder no outro é perceber, com honestidade, até que ponto o que eu sinto é meu e até que ponto eu só estou repetindo o que esperam que eu sinta. Talvez você já tenha passado por isso: um jogo acabou, o time perdeu, e você sentiu um vazio que parecia maior do que o placar. Como se algo tivesse sido arrancado de você. Nessas horas, vale respirar fundo e se perguntar: o que exatamente eu perdi? Um jogo, um título, uma fantasia de perfeição, uma ideia de país, ou um pedaço de mim que eu tinha colocado inteiro nessa história?
A paixão é outro capítulo. Paixão é linda. É ela que faz a gente pular do sofá, abraçar desconhecidos, chorar sem vergonha. O problema não é sentir muito; o problema é quando o “muito” começa a mandar em tudo. Quando eu grito com quem eu amo porque alguém errou um passe. Quando eu entro em brigas idiotas na internet para defender um jogador que nem sabe que eu existo. Quando eu gasto um dinheiro que eu não tenho para provar que eu sou um “verdadeiro torcedor”. Aí a paixão, que poderia ser expressão, vira prisão. E autonomia emocional é essa arte de regular o volume: eu posso aumentar quando quero sentir mais de perto, e posso diminuir quando percebo que estou me atropelando.
No fundo, a Copa acende identidades: de país, de torcida, de “somos isso” e “não somos aquilo”. E é natural que isso mexa com a gente. Mas eu não sou só a camisa que visto, o hino que canto, o time que apoio. Eu sou uma vida inteira, feita de histórias, dores, afetos, escolhas que não cabem em 90 minutos. Quando eu esqueço isso, qualquer crítica ao meu time vira crítica à minha existência. E eu começo a responder como se estivesse defendendo a minha própria dignidade, quando, na verdade, estou defendendo algo que é só um recorte de quem eu sou.
Se você quiser testar, durante esses dias de Copa, pode tentar alguns exercícios discretos, quase invisíveis para quem está de fora, mas muito visíveis para você. No meio do jogo, presta atenção no seu corpo: como está a sua respiração? Seu peito está apertado demais? Seus ombros estão na altura da orelha? Só de notar, você já volta um pouco para dentro, já lembra que existe um “eu” ali, para além da tela. No intervalo, em vez de só entrar na avalanche de comentários, toma um gole de água em silêncio e se pergunta: “Eu estou me divertindo ou estou só cumprindo um papel?”. Sem julgamento, só curiosidade. Se perceber que está passando do ponto brigando, xingando, saindo do eixo em vez de se culpar, tenta entender: “Que parte de mim está tão carente de pertencimento que precisa fazer disso uma guerra?”. Às vezes, o jogo só revela uma fome que já estava aqui antes do campeonato começar.
Torcer sem se perder no outro não é virar espectador frio, distante, blasé. É outra coisa: é entrar de cabeça no momento, mas sem se abandonar durante o processo. É poder vibrar, sofrer, comemorar, xingar o juiz (um pouquinho), e, ainda assim, lembrar: a minha vida é maior do que esse placar. Quando o apito final toca, o bar esvazia, as ruas desarmam as bandeiras, é comigo que eu vou voltar para casa. Eu comigo. A autonomia afetiva que eu trago nesta coluna, essa vontade de te lembrar que você também se pertence, passa por aqui: você pode amar, torcer, se jogar… contanto que não se perca de vista. A Copa vai passar. O que fica é essa relação silenciosa entre você e você mesmo. E é nessa relação que eu quero que você seja, sempre, o time da sua própria casa.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



