Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
@psicanaliseativainpc
Às vezes, a escolha mais difícil da minha vida não é decidir o que eu quero. É admitir que aquilo que eu quero não combina com o que esperavam de mim.
Aprendi cedo que toda família tem seus caminhos preferidos. Há profissões consideradas seguras, formas “certas” de amar, comportamentos vistos como sinais de respeito. Em algumas casas, todos seguem a mesma carreira. Em outras, ninguém se separa, ninguém muda de cidade, ninguém contraria os mais velhos. E, quando alguém tenta fazer diferente, parece que não está apenas escolhendo por si: está rompendo uma espécie de pacto silencioso.
Penso naquela cena tão comum: o almoço de domingo, a mesa cheia, alguém pergunta quando virá o casamento. A pessoa sorri sem graça, muda de assunto, enquanto escuta que “está ficando tarde” ou que “todo mundo precisa de alguém”. Talvez ela esteja em um relacionamento que não deseja manter. Talvez ainda não queira se casar. Talvez esteja tentando compreender quem é antes de dividir a vida com outra pessoa. Mas, diante da família, sente que precisa apresentar uma resposta aceitável.
Também conheço a cena de quem escolheu uma profissão por desejo, mas passa anos tentando justificar essa decisão. “Você não vai fazer concurso?” “Isso dá dinheiro?” “Não seria melhor seguir o caminho do seu pai?” A pergunta parece preocupação, mas muitas vezes carrega um medo: o medo de que uma escolha diferente coloque em dúvida tudo aquilo que a família construiu.
Eu não acredito que tradição seja, por si só, uma prisão. Há costumes que nos oferecem pertencimento, memória e cuidado. Uma receita passada de geração em geração, uma festa que reúne os que estão distantes, uma maneira de acolher quem chega. Existem valores que merecem continuar vivos porque ainda fazem sentido dentro de nós.
Mas preservar a história não significa repetir cada capítulo.
Há tradições que foram construídas em tempos muito diferentes, sob outras necessidades e outros silêncios. O que um dia foi proteção pode ter se transformado em controle. O que já foi lealdade pode hoje parecer culpa. E uma regra criada para manter a família unida pode acabar afastando justamente aqueles que precisam respirar.
Eu posso amar minha família e, ainda assim, não escolher a profissão que esperavam. Posso honrar meus pais sem repetir seus relacionamentos. Posso reconhecer tudo o que recebi e, ao mesmo tempo, decidir que certos sofrimentos não passarão adiante.
Essa talvez seja a parte mais delicada: entender que escolher diferente não precisa ser um gesto de revolta. Muitas vezes, é um gesto de consciência. Não estou necessariamente dizendo “vocês estavam errados”. Estou dizendo: “eu preciso descobrir o que é verdadeiro para mim”.
Foi quando compreendi isso que comecei a enxergar a autonomia afetiva de outra maneira. Ser autônomo não é viver como se ninguém tivesse importância. É poder escutar o amor da família sem entregar a ela o comando inteiro da minha vida. É considerar os conselhos, acolher as preocupações, mas também permanecer presente diante da minha própria vontade.
Nem sempre a família vai compreender de imediato. Algumas pessoas interpretam limites como ingratidão, mudanças como rejeição e silêncio como afronta. Mesmo assim, há momentos em que crescer significa suportar o desconforto de não ser aprovado por todos.
Eu não preciso destruir minhas raízes para escolher novos caminhos. Posso levar comigo o que me fortaleceu e deixar para trás o que me diminui. Posso agradecer pela história que recebi sem permitir que ela escreva, sozinha, o meu futuro.
No fim, talvez amadurecer seja isso: não abandonar de onde vim, mas decidir conscientemente para onde vou.
A tradição pode ser uma raiz. Mas a minha vida ainda precisa ser uma escolha.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
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