O medo que os homens não aprendem a nomear e que as mulheres já começaram a enfrentar
Por Paula Silveira*
Autor: Fabrizio Martins Tavoni é
Doutorando em Educação na Unicamp,
Mestre em Ciência Política pela UFSCar,
Graduação em Ciências Sociais pela UEL
e é naturista.
@fbrn_oficial

Antes de ser visto, o corpo apenas existe. Foto: acervo pessoal.
Sou um homem alto. Do tipo que carrega consigo uma expectativa silenciosa: a de que o resto do corpo confirme o que a estatura promete. Comigo, isso não é regra, sou o que a fisiologia, no caso do genital, chama de grower. Um corpo que não se exibe em repouso. Um corpo que não entrega nada antes da hora.
Essa informação, banal do ponto de vista biológico, não circula onde os corpos são julgados. Ali, o veredito é visual, rápido e implacável.
Essa verdade, no entanto, não chega aos meninos. Não é ensinada nas escolas, não aparece nas telas e é violentamente silenciada nos vestiários. O resultado é uma geração de rapazes paralisada por uma única e avassaladora ansiedade; enquanto as garotas, ao que parece, já começaram a superar as suas.

O medo não é cair. É ser visto caindo. Foto: Joseph Art.
Vinte contra um
A presidente da Federação Brasileira de Naturismo, a colunista de naturismo Paula Silveira, contou-me uma história que funciona como uma parábola para explicar tudo isso. Na turma escolar de seu filho, uma garota comentou que não teria problema em frequentar uma praia naturista. O comentário virou debate.
O resultado surpreendeu: as meninas se mostraram muito mais abertas à experiência do que os meninos.
Dias depois, alguns amigos de seu filho estavam em sua casa. Paula, já sabendo da história, decidiu investigar o que estava por trás daquela hesitação masculina. Diante do silêncio constrangido dos rapazes, ela começou a enumerar a longa lista de pressões estéticas que recaem sobre o corpo feminino: peso, altura, estrias, celulite, marcas na pele, formato dos seios, cabelo, curvas e assim por diante. Mais de vinte razões para hesitar diante da nudez pública. Ainda assim, as garotas estavam dispostas a enfrentar a experiência.
Os rapazes continuavam mudos. Até que Paula foi direta: “o problema é o tamanho do pênis?” Meio sem jeito, eles confirmaram.
Até ensaiaram uma justificativa: eles acreditam que para as mulheres talvez seja mais fácil. Não disseram exatamente o porquê, mas a lógica parecia evidente para eles: o que é externo (genital masculino) se expõe, o que não é (genital feminino), é protegido. A suposição pairava no ar, como se a anatomia resolvesse a questão.
O que ela revelava, no entanto, era outra coisa: não uma diferença entre corpos, mas uma diferença na forma como aprenderam a olhar os corpos. Porque, do outro lado, o que não falta são pressões, expectativas e julgamentos que atravessam o corpo feminino; muitos deles visíveis, outros nem tanto. Ainda assim, eram elas que diziam que iriam.
O medo que paralisava os garotos não era a nudez em si, era a exposição ao olhar alheio, a possibilidade de comparação, a chance de serem considerados insuficientes. Um único temor os mantinha reféns.

Não é a nudez que constrange. É a possibilidade de ser medido. Foto: Pamela Facco.
A conclusão de Paula foi tão precisa quanto desconcertante: “as mulheres têm mais de vinte motivos para superar e disseram que iriam. Vocês têm apenas um e estão com medo?”
O corpo como mercadoria visual
A pergunta desmonta uma engrenagem raramente exposta. Enquanto as mulheres são socializadas para negociar com um bombardeio multifacetado de exigências corporais, o homem foi encurralado em um único e obsessivo critério de valor: a dimensão do falo.
O pênis deixou de ser um órgão funcional para se tornar um marcador visual, uma credencial silenciosa que organiza hierarquias entre homens e, imaginam eles, define seu destino social e afetivo.
O sociólogo Pierre Bourdieu chamaria isso de capital simbólico. O filósofo Michel Foucault descreveria como normalização: o processo pelo qual os corpos são vigiados, medidos e enquadrados em padrões que se apresentam como naturais, mas são historicamente construídos. A psicanálise de Freud e Lacan sugeriria que essa medida nunca se resolve: o falo funciona menos como órgão e mais como significante, organizando o desejo e a comparação.
Hoje, esses padrões já não vêm da experiência cotidiana. Vêm das telas.
A pornografia digital funciona como uma régua global informal, um catálogo infinito de corpos em permanente estado de performance máxima. Ali não existe temperatura ambiente, não existe nervosismo, não existe variação fisiológica. Só existe exibição.
O corpo real, evidentemente, não funciona assim, mas isso não impede que os meninos se meçam por essa métrica impossível.
O que a ciência tem a dizer, e que a cultura popular já intuiu
O drama vivido pelos colegas do filho de Paula é, antes de tudo, um problema de informação. A biologia peniana é muito mais diversa do que as telas sugerem.
Em 2023, um estudo liderado pelo urologista Manuel Alonso Isa, apresentado no Congresso da Associação Europeia de Urologia, em Milão, analisou a morfometria peniana de 225 homens em estado de repouso e após ereção induzida. Pela primeira vez, ofereceu-se uma definição científica para termos já conhecidos no senso comum: grower e shower.
O grower, o chamado “pênis de sangue”, apresenta grande variação entre o estado flácido e o ereto. Já o shower, ou “pênis de carne”, mantém mais volume em repouso e pouca variação ereto. Com base nesse estudo, 24% dos homens são growers, 25% showers e 51% ficam entre um e outro tipo.
Mas o dado essencial é outro: não há qualquer relação entre essa classificação e funcionalidade. Não há superioridade de um tipo sobre o outro.
A retração não é defeito, é proteção. O músculo dartos contrai o pênis e o músculo cremaster o escroto, assim os vasos sanguíneos se ajustam. No frio, na tensão, na ansiedade, no estresse, na exposição a olhares avaliadores ou em situações de luta ou fuga, o órgão se recolhe. Trata-se de um protocolo fisiológico ancestral de proteção.
Um pênis flácido (e no caso dos growers, retraído) não é um projeto inacabado; é um órgão em estado de repouso, exercendo exatamente a função que lhe cabe naquele momento.
O que os garotos (e muitos homens) temem mostrar, portanto, não é um corpo em funcionamento, mas sim um corpo em descanso. E a régua que usam para medir esse descanso é a régua da performance, aplicada fora de contexto.
O que as meninas já entenderam

Elas aprenderam a andar apesar dos julgamentos. Foto: Joseph Art.
A assimetria revelada pela pergunta de Paula também aponta um caminho. Confrontadas com exigências contraditórias: ser magra, mas ter curvas; ser natural, mas perfeita; não envelhecer, não ter marcas; não engordar, as mulheres vêm aprendendo a colocar esse tribunal em xeque.
O feminismo, o body positive e as trocas geracionais vêm oferecendo ferramentas para desmontar esses discursos. As garotas daquela turma já são herdeiras desse acúmulo.
Os meninos, não.
Para eles, a discussão crítica sobre o corpo ainda engatinha. Enquanto as mulheres são incentivadas a verbalizar suas inseguranças, os homens são treinados para silenciá-las. E o silêncio é o terreno fértil onde a comparação e a angústia se multiplicam.
Sem repertório para nomear o que sentem e sem licença social para fazê-lo, resta a esquiva silenciosa e o medo difuso de serem vistos.
Retirar-se do tribunal
Os espaços naturistas, quando pautados por uma ética coletiva, oferecem uma possibilidade rara: experimentar o corpo sem a obrigação da performance. Nesses ambientes, a nudez não é convite, não é afronta, não é argumento. É apenas um estado.
Quando todos estão nus, a exceção vira regra e o olhar perde o ímpeto de medir.
A ditadura do falo sustenta-se sobre uma crença simples: a de que somos projetos inacabados, de que sempre falta algo, de que o corpo precisa ser corrigido. É uma crença lucrativa, mas também uma armadilha. Porque, dentro dela, todo corpo se torna insuficiente. Sempre!
Sair dessa lógica não exige um novo padrão. Exige abandonar a própria ideia de padrão.

Quando se aceita, o corpo deixa de ser medida e volta a ser presença. Foto: acervo pessoal.
Talvez a pergunta de Paula ainda precise ecoar: se elas enfrentam vinte medos, por que eles não enfrentam um? A resposta não está no corpo. Está na régua. E toda régua só funciona enquanto alguém aceita ser medido.
*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.



