Por Eneida Roberta Bonanza
Existe uma cena que acontece todos os dias, em milhares de casas.
A pessoa termina um dia cansativo, chega em casa, troca de roupa, senta no sofá e, de repente, sente uma vontade enorme de comer um chocolate. Ela acredita que está com fome.
Na maioria das vezes, não está.
Essa é uma das descobertas mais fascinantes da neurociência: nosso cérebro não espera os acontecimentos para depois decidir como agir. Ele funciona fazendo previsões o tempo todo.
Isso significa que, ao longo da vida, ele aprende padrões. Se durante meses ou anos você chegou em casa e comeu um doce, o cérebro registra essa sequência. Depois de um tempo, basta abrir a porta de casa para que ele já comece a preparar seu corpo para repetir exatamente o mesmo comportamento.
É como se dissesse: “Eu conheço esse momento. Sei o que costuma acontecer agora.”
Por isso, muitas vezes, a vontade aparece antes da fome. Não porque o corpo precise de energia, mas porque o cérebro reconheceu um cenário familiar.
Esse mesmo mecanismo explica por que sentimos vontade de pipoca ao entrar no cinema, por que um cheiro desperta lembranças da infância ou por que algumas pessoas não conseguem assistir a uma série sem beliscar alguma coisa.
O cérebro não registra apenas alimentos. Ele registra contextos, emoções e memórias.
Durante muito tempo acreditou-se que comer era apenas uma resposta à necessidade do organismo. Hoje sabemos que existe algo muito mais complexo acontecendo. O cérebro tenta antecipar aquilo que provavelmente trará conforto, segurança ou prazer, utilizando tudo o que aprendeu ao longo da vida.
Muitas pessoas acreditam que falta força de vontade quando não conseguem resistir a um doce. Na realidade, em muitos momentos, estão lutando contra circuitos neurais construídos por centenas ou milhares de repetições.
É claro que existe responsabilidade nas nossas escolhas. Mas também existe biologia.
Quando dormimos pouco, áreas responsáveis pelo autocontrole funcionam com menor eficiência, enquanto regiões ligadas à recompensa tornam-se mais ativas. O resultado é conhecido por muita gente: controlar impulsos fica mais difícil e alimentos ricos em açúcar parecem ainda mais irresistíveis.
O estresse produz um efeito semelhante. Em momentos de ansiedade, sobrecarga emocional ou frustração, o cérebro procura caminhos que já conhece para reduzir rapidamente o desconforto. Se, durante anos, um alimento foi associado ao alívio emocional, ele passa a fazer parte dessa estratégia automática.
O doce não resolve o problema. Mas pode aliviar temporariamente a sensação desagradável. E esse alívio fortalece o circuito, aumentando a chance de que ele seja repetido no próximo episódio de estresse.
Talvez seja por isso que uma das perguntas mais importantes em um atendimento não seja apenas: “O que você comeu hoje?”, mas sim: “O que aconteceu hoje?”
Porque, muitas vezes, o que leva alguém até a geladeira não é o estômago. É uma conversa difícil. Uma noite mal dormida. Uma preocupação financeira. Um sentimento de solidão. Ou simplesmente um hábito que o cérebro aprendeu a repetir sem que a pessoa perceba.
A boa notícia é que o cérebro também sabe aprender novos caminhos. Graças à neuroplasticidade, ele é capaz de reorganizar suas conexões ao longo de toda a vida. Cada novo comportamento repetido fortalece circuitos diferentes, enquanto antigos padrões vão, aos poucos, perdendo força.
É por isso que mudanças verdadeiras não acontecem pela culpa, nem pela proibição. Elas acontecem quando compreendemos como nosso cérebro funciona e passamos a construir novas experiências, novos significados e novas respostas para as emoções que carregamos.
Talvez a próxima vez que surgir aquela vontade inexplicável de comer um doce, a pergunta mais importante não seja: “Estou com fome?”, mas sim: “O que meu cérebro está tentando me dizer hoje?”
Sobre a colunista
Eneida Roberta Bonanza é fisioterapeuta, pós-graduada em Neurociência, Neuropsicologia e Medicina Tradicional Chinesa, com formação em Microfisioterapia e diversas abordagens integrativas. É CEO da CHER – Centro Humanizado de Especialidades e Reabilitação, criadora da TICS (Terapia Integrativa de Conexão Sistêmica), palestrante e escritora. Na coluna Transformação Vital, traduz a ciência em uma linguagem acessível, conectando saúde, comportamento e desenvolvimento humano.



