Por Ramon Henrique
Existe uma geração que aprendeu a amar em silêncio. Que cresceu ouvindo que o seu amor era errado, que o seu jeito era pecado, que o seu corpo era vergonha.
Uma geração que teve que esconder cartas, apagar nomes, engolir o choro, sorrir em casamentos que não eram seus, viver vidas que não eram suas só para sobreviver. E mesmo assim, eles sobreviveram.
Eles viram amigos partirem cedo demais. Perderam amores para o preconceito, para a AIDS, para a solidão, para famílias que viraram as costas.
Carregam no peito cicatrizes que ninguém vê, mas que contam a história de um Brasil que tentou apagá-los. E eles continuam aqui. Com as rugas, com as memórias, com a dignidade intacta e com o direito de serem vistos, ouvidos e amados exatamente como são.
Hoje, muitos desses idosos voltam para o armário por medo. Medo de ir para um asilo e serem humilhados. Medo de não poderem segurar a mão de quem amaram a vida inteira. Medo de serem tratados como se a sua história não existisse.
Tem senhor que viveu 40 anos com o mesmo companheiro e não pôde nem se despedir no velório. Tem senhora que criou filhos, cuidou de todos, e hoje chora sozinha porque nunca pôde viver o seu amor em paz.
Tem pessoa trans que passou a vida lutando só para existir e hoje só quer uma coisa simples: ser chamada pelo seu nome.
Mas envelhecer sendo LGBTQIA é um ato de coragem e de orgulho. É a prova viva de que nós sempre existimos. Eles são a nossa memória, a nossa raiz, a nossa história. Foram eles que abriram as portas que hoje atravessamos com mais liberdade.
Se hoje podemos postar uma foto com quem amamos, andar de mãos dadas na rua, falar de quem somos sem tanto medo, é porque eles pagaram um preço muito alto lá atrás, quando ninguém tinha coragem.
Por isso, cuidar dos nossos idosos LGBTQIA não é favor, é obrigação de amor. É ligar, é visitar, é incluir, é perguntar como estão, é não deixar ninguém envelhecer sozinho.
É garantir respeito no posto de saúde, no hospital, no asilo, na igreja, na família e em todos os lugares. É olhar nos olhos deles e dizer: vocês não estão sozinhos, vocês são importantes, vocês merecem viver essa fase da vida com paz, com afeto e com orgulho.
Que a gente nunca esqueça: todo idoso já foi jovem, já amou, já sonhou, já lutou. E todo jovem LGBTQIA um dia vai envelhecer.
O futuro que queremos para eles é o futuro que queremos para nós. Um futuro onde ninguém precise se esconder para envelhecer em paz.
Porque orgulho não tem prazo de validade. Amor não envelhece. E ninguém, absolutamente ninguém, deve ser esquecido só porque ficou mais velho.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista Veja/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



