Por Valquíria Gomes da Silva
@valquiriagomes.adv
Semanalmente, mulheres que chegam no escritório emocionalmente esgotadas, muitas vezes depois de anos tentando salvar um casamento que, para elas, já terminou há muito tempo. E, quase sempre, existe alguém do lado de fora fazendo a mesma pergunta: “Se ela está tão infeliz, por que simplesmente não vai embora?”
A resposta é muito mais complexa do que parece.
Uma mulher não demora a se divorciar necessariamente porque ainda ama. Muitas vezes, demora porque sabe o preço que poderá pagar pela decisão de partir.
Quando falamos sobre divórcio, costumamos enxergar apenas o fim de um relacionamento. Mas, para muitas mulheres, separar-se significa enfrentar uma verdadeira reconstrução da própria vida. É pensar onde vai morar, como sustentará os filhos, quem ficará com a casa, como será a guarda, se conseguirá pagar as contas e, principalmente, como enfrentará a reação do homem com quem dividiu anos de sua história.
Ou seja, enquanto o homem se preocupa com o fim do casamento, as mulheres precisam se preocupar também com tudo aquilo que acontecerá depois dele.
E uma das maiores razões para adiar o divórcio é a dependência financeira. Porque muitas mulheres interromperam suas carreiras, recusaram oportunidades profissionais ou reduziram suas jornadas de trabalho para cuidar dos filhos e da casa.
Durante anos, elas contribuíram para a construção do patrimônio familiar, ainda que essa contribuição não tenha aparecido diretamente na conta bancária. E quando o casamento termina, porém, surge uma pergunta angustiante: “Como vou conseguir manter meus filhos?”
O medo não é apenas de perder conforto. É de não conseguir oferecer alimentação, moradia, escola e educação.
Embora a lei assegure direitos relacionados à partilha de bens e à prestação de alimentos, conhecer esses direitos não significa ter tranquilidade para enfrentar um processo judicial. E a insegurança aumenta quando o marido utiliza o dinheiro como ameaça: “Você não vai conseguir nada sem mim.”
A culpa de desfazer a família
Outra razão é a culpa. Porque desde pequenas, as mulheres aprendem que precisam preservar a família, manter o casamento e fazer o relacionamento funcionar.
Quando a relação começa a fracassar, é comum que assumam sozinhas a responsabilidade de consertá-la. Tentam conversar, perdoam, procuram terapia, mudam comportamentos e oferecem novas oportunidades. E, quando finalmente pensam em se divorciar, ainda escutam: “Você vai destruir sua família por causa disso?”
Mas precisamos questionar essa ideia. Porque, será que uma família é preservada apenas porque duas pessoas continuam morando sob o mesmo teto?
Uma casa marcada por discussões constantes, humilhações, indiferença ou violência também pode causar sofrimento aos filhos. O divórcio pode representar o encerramento da relação conjugal, mas não precisa significar o fim da família. Mesmo porque a parentalidade continua existindo, assim como as responsabilidades de ambos os genitores.
O medo de perder os filhos
Na minha atuação como advogada familiarista, também encontro mulheres que permanecem em relacionamentos infelizes porque acreditam que, ao se separar, poderão perder a guarda dos filhos. Algumas ouvem ameaças como: “Se você pedir o divórcio, nunca mais verá as crianças.”
E essas frases provocam medo, especialmente quando a mulher não conhece seus direitos. Por isso, é importante esclarecer que pedir o divórcio não significa perder a guarda dos filhos. As questões relacionadas à guarda e à convivência serão analisadas conforme o melhor interesse da criança ou do adolescente, e não como punição pela decisão de encerrar o casamento.
Existe, ainda, uma realidade que não podemos ignorar: algumas mulheres não permanecem casadas por escolha, mas por medo. Medo de agressões, perseguições, ameaças, exposição da intimidade ou represálias financeiras.
Em relacionamentos abusivos, o momento da separação pode representar um período de maior risco, especialmente quando o agressor percebe que está perdendo o controle sobre a vítima. Por isso, dizer simplesmente “é só ir embora” demonstra desconhecimento da realidade enfrentada por essas mulheres.
Em situações de violência doméstica, a saída precisa ser pensada com segurança, apoio e orientação adequada. A lei prevê mecanismos de proteção, inclusive medidas protetivas de urgência, quando presentes os requisitos legais.
Ninguém deveria precisar escolher entre permanecer em um casamento infeliz e colocar a própria integridade em risco, mesmo porque o divórcio começa antes da assinatura.
Existe algo que aprendi ouvindo tantas histórias: muitas mulheres se divorciam emocionalmente muito antes de procurar um advogado. Elas deixam de esperar mudanças, de fazer planos conjuntos e de acreditar nas promessas de que tudo será diferente.
Mas continuam ali. Não necessariamente porque desejam permanecer, e sim porque ainda estão tentando reunir condições emocionais, financeiras e práticas para partir. Até que chega o dia em que conseguem tomar a decisão. E, para quem observa de fora, pode parecer que tudo aconteceu de repente.
O que poucos percebem é que aquela mulher talvez tenha levado anos para encontrar coragem, informação e segurança. Por isso, antes de perguntar por que uma mulher demorou tanto para se divorciar, talvez devêssemos perguntar quantas vezes ela tentou salvar o casamento sozinha, quantos medos precisou enfrentar e quantas responsabilidades carregou em silêncio.
Nenhuma mulher deveria ser julgada pelo tempo que levou para sair de um relacionamento.
Algumas conseguem partir rapidamente. Outras precisam de anos para reconstruir a confiança em si mesmas e encontrar condições de recomeçar. O importante é compreender que o divórcio não é, necessariamente, um fracasso. Em determinadas histórias, pode ser justamente o primeiro passo para recuperar a dignidade, a autonomia e a paz.
Porque, às vezes, a decisão mais difícil não é deixar de amar alguém. É finalmente entender que permanecer não pode significar deixar de amar a si mesma



