Por Bia Rossatti
Vitória de Samotrácia: há vitórias que só existem porque houve travessia
Diante dela, no alto da escadaria Daru, no Museu do Louvre, há um instante em que é preciso parar.
A mulher diante de nós não tem cabeça. Não tem braços. Suas asas carregam as marcas de mais de dois mil anos. E, ainda assim, poucas imagens na história da arte conseguem transmitir tanta força.
Ela é a Vitória de Samotrácia.
E talvez seja justamente isso que torne essa escultura tão impactante: ela nos obriga a rever aquilo que entendemos por vitória.
Porque nem toda vitória chega inteira.
Uma deusa chegando depois da batalha
A Vitória de Samotrácia foi criada por volta do século II a.C., durante o período helenístico da arte grega. Ela representa Nike, a deusa grega da vitória.
A escultura foi encontrada em 1863 na ilha grega de Samotrácia pelo diplomata e arqueólogo amador Charles Champoiseau. Estava fragmentada. Diversas partes foram recuperadas e posteriormente levadas para o Louvre.
Mas existe um detalhe fundamental para compreendermos a obra.
Nike não foi concebida simplesmente para ficar sobre um pedestal.
Ela estava posicionada sobre a proa de um navio de pedra.
Seu corpo inclina-se para a frente. As enormes asas estão abertas. O tecido parece colado ao corpo pelo vento e pela água do mar.
Tudo nela sugere movimento.
É como se estivéssemos presenciando exatamente o instante em que a Vitória chega.
Provavelmente, o monumento celebrava uma vitória naval, embora as circunstâncias exatas de sua encomenda ainda sejam discutidas pelos estudiosos.
E talvez exista aí uma primeira metáfora importante para nossas próprias histórias: a vitória não aparece antes da tempestade. Ela chega depois da travessia.
A mulher que perdeu partes de si
Há algo profundamente humano em olhar para uma deusa da vitória que chegou até nós incompleta.
Não sabemos exatamente como era seu rosto.
Seus braços desapareceram.
Partes de suas asas precisaram ser reconstruídas.
E, ainda assim, quando subimos a escadaria do Louvre e a encontramos diante de nós, dificilmente pensamos primeiro naquilo que lhe falta.
Pensamos em sua força.
Essa experiência me fez pensar em algo que encontro repetidamente nas histórias de mulheres que atravessam grandes rupturas afetivas.
Depois de uma separação, muitas dizem:
“Eu quero voltar a ser quem eu era.”
É compreensível.
Quando uma relação importante termina, não perdemos apenas uma pessoa. Podemos perder projetos, referências, lugares sociais, certezas e até a imagem que construímos sobre nós mesmas.
É como se algumas partes da identidade também desaparecessem.
Mas existe uma pergunta que considero ainda mais importante:
E se a cura não significar voltar a ser quem você era?
Há perdas que nos modificam para sempre
Durante muito tempo, construímos uma ideia perigosa sobre superação.
A de que superar significa deixar de sentir. Esquecer. Virar a página. Voltar ao normal.
Mas algumas experiências não nos devolvem ao ponto de partida.
Elas nos atravessam.
Depois delas, podemos continuar vivendo, amando, construindo e até sendo felizes novamente — mas não somos exatamente as mesmas pessoas.
E isso não significa que fracassamos na cura.
Significa que houve transformação.
A Vitória de Samotrácia não precisou recuperar seus braços para continuar sendo
Vitória.
Talvez nós também não precisemos recuperar todas as versões que fomos para reconhecer a mulher que estamos nos tornando.
Cura não é apagar a história
É aqui que gosto de fazer uma distinção importante.
Curar não significa romantizar o sofrimento. Nem acreditar que “tudo acontece por uma razão”.
Existem perdas que gostaríamos sinceramente de não ter vivido. Existem relações que deixam feridas profundas. Existem finais injustos.
A cura começa quando conseguimos olhar para o que aconteceu sem permitir que aquilo continue determinando toda a nossa identidade.
Em meu trabalho, chamo esse processo de travessia.
Há um ponto em que precisamos reconhecer a dor. Outro em que precisamos compreender nossas feridas. Depois, lentamente, começa a reconstrução da identidade.
Até que uma pergunta diferente aparece. Não mais:
“Por que isso aconteceu comigo?”
Mas:
“Quem escolho ser depois do que aconteceu comigo?” Essa mudança parece pequena. Mas pode mudar uma vida.
As asas continuam abertas
Talvez seja por isso que a Vitória de Samotrácia continue causando tanto impacto depois de tantos séculos.
Seu corpo carrega ausências. Mas suas asas permanecem abertas.
E essa imagem contém uma verdade que precisamos lembrar especialmente nos momentos de recomeço:
estar marcada pela vida não é o mesmo que estar derrotada por ela.
Você pode ter perdido uma relação e não ter perdido sua capacidade de amar. Pode ter perdido um projeto e ainda construir outro. Pode ter perdido certezas e descobrir novas escolhas.
Pode não ser mais a mulher que entrou naquela história — e talvez esse seja justamente o começo.
Porque algumas vitórias não acontecem quando recuperamos aquilo que perdemos.
Acontecem quando percebemos que, apesar do que perdemos, ainda conseguimos seguir.
Talvez a pergunta diante da Vitória de Samotrácia não seja: “Como ela pode ser tão bela mesmo estando incompleta?” Talvez seja outra:
Quem decidiu que precisamos estar intactas para sermos inteiras?
A vida deixa marcas. Algumas serão restauradas. Outras permanecerão conosco.
Mas chega um momento da travessia em que paramos de procurar desesperadamente pelas partes que ficaram para trás e começamos a reconhecer aquilo que sobreviveu.
A própria força. A própria voz. A própria identidade. A própria vida.
E talvez seja exatamente nesse momento que compreendamos a mensagem silenciosa daquela mulher alada que atravessou mais de dois mil anos para permanecer diante de nós:
a vitória não é chegar ao outro lado sem marcas. É chegar ao outro lado e descobrir que suas asas ainda estão abertas.
Bia Rossatti é terapeuta familiar e autora de “A Rota da Cura”, obra dedicada aos processos de cura emocional, reconstrução da identidade e recomeço após rupturas afetivas.



