Por Bia Rossatti — Terapeuta Sistêmica
O problema nem sempre é aquilo sobre o que vocês brigam
Imagine um casal que discute constantemente por dinheiro.
À primeira vista, o problema parece financeiro.
Mas, quando começamos a olhar mais profundamente, podemos encontrar outras questões:
“Eu sinto que não posso contar com você.”
“Você nunca reconhece o que eu faço.”
“Eu tenho medo de perder tudo.”
“Eu sinto que todas as decisões ficam nas minhas costas.”
O dinheiro estava na conversa.
Mas talvez não fosse o assunto principal.
Isso acontece com frequência nos relacionamentos.
A discussão sobre filhos pode esconder diferenças de valores.
A discussão sobre sexo pode esconder rejeição, distância ou ressentimento.
A reclamação sobre o celular pode esconder uma sensação de abandono.
A cobrança pode esconder medo.
E o silêncio pode esconder impotência.
O problema é que, quando estamos magoados, a gente costuma interpretar o comportamento do outro antes de tentar entendê-lo.
E, quando o casal não consegue enxergar essas camadas, acaba tentando resolver a superfície do problema.
E o conflito volta.
A ciência também está olhando para isso
Uma revisão sistemática publicada em setembro de 2026 analisou 72 publicações sobre mentalização nos relacionamentos de casal. Na meta-análise de 24 estudos, uma maior capacidade de compreender os próprios estados mentais e os do parceiro apresentou associação moderada com maior satisfação no relacionamento. Os autores também encontraram associações entre mentalização e processos relacionais mais adaptativos, embora ressaltem que a evidência sobre intervenções ainda seja limitada e heterogênea.
Em outras palavras: a maneira como interpretamos o que o outro sente, pensa e pretende pode fazer parte da dinâmica do relacionamento.
E aqui existe uma diferença enorme entre:
“Eu sei exatamente por que você fez isso.”
e
“Eu quero entender o que aconteceu com você.”
A primeira frase encerra a conversa.
A segunda pode abrir uma porta.
E existe outro elemento: a emoção
Um estudo publicado em 2026 acompanhou 174 casais em terapia durante as oito primeiras sessões e observou aumento da satisfação relacional ao longo desse período. O estudo também encontrou associações entre dificuldades de regulação emocional e a satisfação de cada parceiro e do casal.
Isso ajuda a explicar por que algumas conversas parecem impossíveis.
Às vezes, o casal não está apenas tentando resolver um problema.
Está tentando resolver um problema enquanto está emocionalmente ativado.
E quando isso acontece, cada frase pode ser interpretada como ataque.
Uma pergunta vira cobrança.
Uma explicação vira justificativa.
Um pedido vira crítica.
Um silêncio vira rejeição.
E o ciclo continua.
É por isso que conhecimento importa
Conhecimento não significa transformar o casamento em uma aula de psicologia.
Significa desenvolver consciência suficiente para começar a perguntar:
O que está acontecendo comigo?
O que está acontecendo com você?
O que está acontecendo entre nós?
Qual é o padrão que estamos repetindo?
Qual é a minha responsabilidade nisso?
E talvez a pergunta mais difícil:
O que eu ainda não estou conseguindo enxergar?
No meu livro Depois do Divórcio — A Rota da Cura, trabalho justamente essa passagem da justificativa para a consciência e a responsabilidade.
Reconhecer erros não significa assumir toda a culpa.
Significa conseguir olhar para aquilo que nos cabe sem negar a própria dor e sem transformar o outro no único responsável por tudo.
Porque, quando eu reconheço minha participação, recupero também uma parte importante do meu poder de transformação.
Clareza antes da decisão
É por isso que acredito que, diante de uma crise conjugal, existe uma etapa que merece ser respeitada:
a compreensão antes da decisão.
Isso não significa defender que todo casamento precisa ser preservado.
Nem significa que o divórcio seja uma decisão errada.
Significa apenas que uma decisão tão importante merece ser tomada depois que o casal conseguiu olhar para a própria história com mais clareza.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 avaliou 40 estudos sobre modelos de terapia de casal e encontrou evidências de suporte para diferentes abordagens, sem que uma única abordagem pudesse ser considerada universalmente superior dentro dos critérios analisados. Os autores também destacam limitações da base de evidências e a necessidade de pesquisas mais robustas e diversificadas.
Isso reforça algo que considero essencial no meu trabalho:
não se trata simplesmente de encontrar uma técnica para “consertar” o casamento.
Trata-se de criar um espaço em que duas pessoas possam compreender o que construíram, reconhecer o que precisa mudar e avaliar, com mais consciência, quais caminhos ainda existem.
Antes de decidir, compreenda
Talvez a pergunta não seja apenas:
“Eu ainda amo meu marido?”
Talvez seja também:
“Eu compreendo o que aconteceu conosco?”
“Compreendo o padrão que nos trouxe até aqui?”
“Se alguma coisa mudasse entre nós, ainda existiria um caminho possível?”
Porque clareza não significa escolher ficar.
Também não significa escolher partir.
Clareza significa conseguir escolher sabendo melhor o que está escolhendo.
E talvez seja justamente por isso que, antes do fim, algumas histórias precisem de uma conversa que ainda não aconteceu.
Bia Rossatti é Terapeuta Sistêmica e autora de Depois do Divórcio — A Rota da Cura.
Fontes científicas
2026 — Mentalization and couple relationships: A systematic review of associations and interventions. https://doi.org/10.1111/papt.70102
2026 — Emotion Regulation and Relationship Satisfaction in Couple Therapy: What Happens Across Sessions? https://doi.org/10.1111/famp.70125
2026 — Empirically Supported Couple Therapy Models for Couple Relationship Distress: A Replication and Update. https://doi.org/10.1111/jmft.70162



