Por Fabiana Ribeiro
@fabianaribeirodos805
Arteterapia e brincar estão intrinsecamente ligados à capacidade humana de criar, imaginar, experimentar e atribuir novos significados às próprias vivências. O brincar, especialmente quando compreendido para além de uma atividade recreativa, constitui uma importante experiência de expressão e comunicação, favorecendo processos de simbolização, criatividade, vínculo e elaboração emocional.
Na arteterapia esta perspectiva é extremamente relevante, uma vez que os recursos artístico-expressivos possibilitam a expressão pelo indivíduo de experiências que nem sempre encontram representação suficiente na linguagem verbal. Desenhar, pintar, modelar, construir, colar, dramatizar, movimentar-se ou experimentar diferentes materiais pode constituir uma forma de brincar com imagens, formas, cores, símbolos e possibilidades. Desta forma o setting terapêutico pode ser compreendido como um espaço de experimentação e criação, no qual o sujeito encontra condições para se expressar de maneira singular e construir novas possibilidades de relação consigo mesmo, com o outro e com o mundo.
Para Winnicott (1975) no brincar a criatividade se manifesta de maneira significativa. O brincar acontece em uma área intermediária entre a realidade interna do sujeito e a realidade externa compartilhada, denominada pelo autor de espaço potencial.
Segundo a literatura brasileira fundamentada em Winnicott, o espaço potencial favorece a criação de símbolos e significados, portanto, ao brincar a criança não está simplesmente ocupando seu tempo, ela está experimentando possibilidades, estabelecendo relações, criando narrativas e atribuindo sentidos às experiências. Tendo no setting terapêutico uma importante função clínica.
Em setting terapêutico o brincar funciona como uma linguagem intermediária. Uma criança pode não conseguir dizer verbalmente que está sentindo medo, mas pode construir um personagem assustado. Pode não conseguir explicar a experiência de raiva, mas pode representá-la por meio de uma história, de uma pintura ou de uma brincadeira. Pode não conseguir falar sobre abandono, mas pode criar personagens que são deixados sozinhos em determinado cenário.
Porém, convém ressaltar que para a observação de situações emocionais ou psíquicas, é fundamental respeitar a singularidade da experiência do paciente e construir os sentidos ao longo do processo terapêutico, de acordo com seu contexto, sua história de vida e suas necessidades. Objetivando o brincar em setting terapêutico como experiẽncia de comunicação, subjetivação, criatividade e elaboração.
Nos processos de Arteterapia, as expressões artísticas promovem experimentação, ao explorar materiais ofertados nas sessões, como argila, tintas, papéis, entre outros. A criança está simultaneamente criando e brincando. O material é um mediador da experiência. O processo deixa de ser apenas “fazer uma atividade” e passa a constituir uma experiẽncia de descoberta. Deste modo a arteterapia favorece o que Winnicott compreende como viver criativo, possibilitando ao indivíduo relacionar-se com a realidade de maneira mais espontânea e significativa.
Em setting terapêutico, existe uma dimensão relacional no brincar: terapeuta e paciente podem construir juntos uma experiência criativa. Sendo o terapeuta não apenas um observador deste processo lúdico, mas deve compreender que o brincar está atrelado a um território em que o paciente consegue se expressar. Quando ocorre a sobreposição do brincar do paciente e o brincar do terapeuta, cria-se uma experiência compartilhada. Acolhendo e respeitando as necessidades dos atendidos, sem interpretações precipitadas.
Embora o brincar tenha um forte espaço de simbolização, o símbolo não deve ser interpretado de maneira automática ou universal.Este significado é pertencente ao sujeito de acordo com sua história.
Através de brincar o paciente não precisa apenas falar sobre sua experiẽncia: ele pode experimentá-la, representá-la e recriá-la. Cabendo ao Arteterapeuta, sustentar o enquadre sem aprisionar a criatividade, acompanhar sem invadir, observar sem antecipar, participar sem tomar para si e a experiẽncia do paciente.
Brincar, na arteterapia, não é simplesmente fazer uma atividade lúdica, é entrar no universo do paciente sem perder seu lugar profissional, brincar sem banalizar, criar sem impor, e acompanhar a transformação sem determinar previamente o que ela deverá significar.
“ O arteterapeuta brincante não brinca para entreter: brinca para encontrar o paciente
no território em que ele consegue criar, comunicar e transformar.”
Referências
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975
FELICE, Eliana Marcello de. O lugar de brincar na psicanálise de crianças. Psicologia: Teoria e Prática, v.5. n.1 p. 71 – 79, 2003.
“O brincar como experiência criativa na psicanálise com crianças”. Fractal: Revista de Psicologia, v. 32, n.3, 2020.
Fabiana Ribeiro, Pedagoga, Psicopedagoga, Arteterapeuta, Neuroeducadora, pós graduanda em Análise do Comportamento ABA, Ludicidadade e Artes e Psicologia Ativa, Gestão de Pessoas e Saúde no Trabalho e graduanda em Terapia Ocupacional. Radialista e Palestrante, professora de Educação Infantil na Rede Municipal de Cotia/SP.



