Por André Henrique
Araponga-de-garganta-nua e seriema ultrapassam 120 decibéis e estão entre as aves com os cantos mais intensos já medidos pela ciência
O Brasil já é reconhecido mundialmente por sua extraordinária diversidade de aves. Agora, duas espécies encontradas no país ganharam destaque por uma característica impressionante: a potência de suas vocalizações.
A araponga-de-garganta-nua (Procnias nudicollis) e a seriema (Cariama cristata) estão entre as aves mais barulhentas já medidas pela ciência. Seus cantos podem ultrapassar 120 decibéis de pico, intensidade comparável à produzida por equipamentos extremamente ruidosos, como motosserras e britadeiras.
Um estudo sobre o som das aves
A descoberta faz parte de uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos, com participação do pesquisador brasileiro João C. T. Menezes. O trabalho foi publicado na revista científica Evolution.
Ao todo, os pesquisadores mediram a amplitude das vocalizações de 123 espécies de aves, em áreas dos Estados Unidos e de diferentes regiões do Brasil. Um dado chama atenção: 113 dessas espécies nunca haviam tido anteriormente a intensidade de seus cantos catalogada.
O objetivo, entretanto, ia muito além de descobrir qual ave poderia levar o título de mais barulhenta. Os cientistas queriam compreender quais características físicas permitem que determinadas espécies produzam vocalizações tão poderosas.
Mais de 120 decibéis
Entre as espécies estudadas, houve uma diferença de aproximadamente 58 decibéis entre as vocalizações registradas.
Na extremidade mais silenciosa apareceu um beija-flor, com cerca de 64 decibéis, intensidade próxima à de uma conversa. No outro extremo estavam a seriema e a araponga-de-garganta-nua, ultrapassando os 120 decibéis.
No caso da araponga-de-garganta-nua, uma das medições alcançou 122,4 decibéis, quando o som foi padronizado para uma distância de um metro. Dependendo do método utilizado para calcular a amplitude, um indivíduo chegou a apresentar pico próximo dos 131 decibéis.
É uma capacidade surpreendente para um animal desse tamanho.
O segredo pode estar no corpo e no bico
Os resultados mostraram que o tamanho corporal ajuda a explicar parte dessa potência sonora. De maneira geral, aves maiores tendem a produzir sons mais intensos.
Mas existe outro detalhe importante: a abertura do bico.
As espécies capazes de produzir cantos mais fortes também tendem a apresentar uma abertura de bico mais larga. A lógica pode ser comparada aos instrumentos de sopro: estruturas mais amplas podem favorecer a projeção e a propagação do som.
Nesse aspecto, as duas brasileiras apresentam características interessantes. A seriema foi a maior ave analisada no estudo, enquanto as arapongas possuem uma abertura de bico especialmente larga em relação ao tamanho do corpo.
Ainda assim, tamanho e formato do bico não explicam tudo.
Por que cantar tão alto?
Essa talvez seja a pergunta mais interessante deixada pela pesquisa.
Os cientistas investigaram se os cantos mais intensos poderiam estar associados a determinados ambientes, dificuldades de voo ou estratégias reprodutivas.
Uma das hipóteses era de que espécies que vivem em florestas densas precisariam emitir sons mais fortes para se comunicar através da vegetação. Outra possibilidade seria utilizar vocalizações de grande alcance para encontrar ou atrair parceiros.
Porém, quando diferentes espécies foram comparadas, nenhuma dessas hipóteses conseguiu explicar de maneira geral a evolução dos cantos extremamente intensos.
Isso significa que diferentes aves podem ter desenvolvido vocalizações poderosas por razões distintas ao longo da evolução.
A famosa voz da araponga
Para quem já esteve em uma área de Mata Atlântica onde ocorre a araponga, sua presença dificilmente passa despercebida.
O som metálico e extremamente forte produzido pelo macho pode ser ouvido a grandes distâncias e constitui uma das vocalizações mais características das florestas brasileiras.
A nova pesquisa também se soma a descobertas anteriores envolvendo outra integrante do gênero: a araponga-branca (Procnias albus), encontrada na Amazônia, já havia chamado atenção internacional após um estudo de 2019 registrar vocalizações chegando a 125,4 decibéis.
Agora, os novos resultados reforçam a capacidade extraordinária desse grupo de aves para produzir sons de elevada intensidade.
Ciência feita no campo
Medir tudo isso não é simples.
A intensidade registrada por um equipamento varia conforme a distância da ave. Para conseguir comparar diferentes espécies em condições naturais, os pesquisadores utilizaram telêmetros a laser, capazes de determinar a distância exata do animal, combinados com medidores de som de alta resolução.
Assim, foi possível corrigir as medições levando em consideração a distância e comparar de maneira mais confiável as vocalizações observadas em campo.
O trabalho demonstra também a importância das pesquisas realizadas diretamente na natureza. Observar, ouvir e medir os animais em seus próprios ambientes permite revelar características que dificilmente seriam compreendidas apenas em laboratório.
Um mistério que a ciência ainda tenta explicar
A pesquisa conseguiu responder parte da questão: aves maiores e com aberturas de bico mais largas tendem a produzir sons mais intensos.
Mas permanece uma pergunta fundamental: por que algumas espécies evoluíram para cantar tão alto?
Os próximos estudos deverão investigar tanto os mecanismos físicos responsáveis por essa extraordinária capacidade quanto suas vantagens — e possíveis custos — evolutivos.
Enquanto essas respostas não chegam, arapongas e seriemas mostram que a biodiversidade brasileira também impressiona pelos sons.
Em meio às florestas e campos do país, algumas das vozes mais poderosas do mundo animal continuam ecoando.
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André Henrique de Rezende Almeida
@BIOLOGOANDREHENRIQUE
Biólogo CRBIO 02: 60.945
Engenheiro Ambiental CREA: ES-055476/D



