Por Kamila Gimenes
@dra.kamilagimenes
Essa é uma das frases mais ouvidas nos consultórios médicos que trabalham com nutrologia, endocrinologia e medicina do esporte. Apesar de parecer uma solicitação simples, ela frequentemente revela um equívoco conceitual importante: muitas pessoas acreditam que emagrecer significa apenas reduzir o número exibido na balança. Na prática, o verdadeiro objetivo deveria ser melhorar a composição corporal, e não simplesmente perder peso.
O peso corporal representa a soma de diferentes componentes do organismo. Quando uma pessoa sobe na balança, o valor obtido inclui massa muscular, gordura corporal, água, ossos, órgãos e até mesmo o conteúdo presente no trato gastrointestinal. Dessa forma, duas pessoas podem apresentar exatamente o mesmo peso e a mesma altura, mas possuir características físicas e metabólicas completamente distintas.
Imagine dois indivíduos com 80 kg e 1,75 m de altura. O primeiro possui elevado percentual de gordura corporal e pouca massa muscular. O segundo apresenta grande quantidade de massa muscular e baixo percentual de gordura. Embora a balança mostre o mesmo valor para ambos, os riscos metabólicos, a capacidade funcional, a aparência física e até mesmo o prognóstico de saúde são muito diferentes. Esse exemplo demonstra que o peso isoladamente fornece informações limitadas sobre a condição corporal de uma pessoa.
O problema se torna ainda mais evidente durante programas de emagrecimento. Muitas pessoas iniciam dietas restritivas com o objetivo de reduzir rapidamente o peso corporal. De fato, a balança pode indicar uma perda significativa nos primeiros dias ou semanas. Entretanto, parte dessa redução frequentemente ocorre às custas da perda de água corporal e consequente diminuição de volume da fibra muscular, e não necessariamente da redução dos níveis de gordura.
Do ponto de vista clínico, a manutenção do volume muscular, bem como seu constante desenvolvimento, desempenha papel fundamental no metabolismo energético, na força, na funcionalidade, na prevenção de lesões e na manutenção da independência ao longo do envelhecimento. Além disso, indivíduos com maior quantidade de massa muscular costumam apresentar melhor sensibilidade à insulina, maior gasto energético de repouso e melhor desempenho físico. Do ponto de vista fisiológico, o músculo desempenha papel semelhante a um órgão endocrinológico.
Por esse motivo, o sucesso de um tratamento não deve ser avaliado exclusivamente pelo peso perdido, mas pelo ajuste da composição corporal. Muitas vezes, a visualização de pouco peso eliminado na balança, não significa que o tratamento foi infrutífero. O adequado ajuste de composição corporal ocorre com diminuição de gordura e aumento do volume, e por consequência o peso, da fibra muscular. O que na balança pode camuflar a redução dos dígitos, gerando sensação de frustração frente ao aparente “não emagrecimento”.
Esse fenômeno explica uma situação comum observada entre praticantes de atividade física. Muitas pessoas começam um programa de treinamento resistido, como musculação, associado a uma alimentação adequada. Após algumas semanas, percebem que o peso na balança mudou pouco ou até permaneceu estável. Apesar disso, as roupas ficam mais folgadas, a circunferência abdominal diminui e a definição muscular melhora. Nesses casos, ocorreu uma recomposição corporal: houve redução de gordura simultaneamente ao ganho ou preservação do volume muscular.
A sociedade, entretanto, continua excessivamente dependente da balança como indicador de sucesso. Programas televisivos, propagandas e redes sociais frequentemente destacam apenas quantos quilos foram perdidos, sem discutir a qualidade dessa perda. Essa abordagem simplista contribui para a disseminação de métodos inadequados, que priorizam resultados rápidos em detrimento da saúde e da sustentabilidade a longo prazo.
Kamila Gimenes é médica, graduada pela Universidade de Caxias do Sul, com pós-graduação em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), pós-graduanda em Medicina do Exercícío e do Esporte. Possui Certificação Internacional no Tratamento da Obesidade, concedido pela Comissão Europeia de Obesidade e formação complementar em doenças relacionadas ao envelhecimento. Atua com enfoque em medicina metabólica, com capacitação em metabolômica e bioquímica clínica.
Clínica Integrare – Erechim/RS
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