Por Érika Ricci
Quando os discursos dos adultos atravessam a infância, a imaginação transforma o que foi ouvido em histórias, brincadeiras e até discussões surpreendentes. Mas o que isso revela sobre nossas crianças e sobre nós mesmos?
Por Érika Ricci – Psicóloga Clínica | CRP 06/120081
Basta uma criança começar a falar sobre política para os adultos se surpreenderem. Entre frases reproduzidas com convicção, expressões que parecem sair de um debate eleitoral e interpretações carregadas de fantasia, surgem situações que provocam risadas, espanto e, principalmente, reflexões.
Quem nunca ouviu uma criança contar algo com tanta certeza que parecia estar descrevendo um acontecimento extraordinário? O mais curioso é que, muitas vezes, ela está apenas reorganizando informações que ouviu dos adultos, misturando realidade, imaginação e sua própria compreensão do mundo.
Mas o que acontece quando essas informações envolvem política, disputas ideológicas e conflitos que nem mesmo os adultos conseguem administrar com tranquilidade?
Vivemos um momento em que a política ultrapassou os espaços tradicionalmente destinados ao debate público. Ela está nas reuniões familiares, nas redes sociais, nas conversas entre amigos, nos grupos de mensagens e, inevitavelmente, também chega aos ouvidos das crianças. E elas estão prestando atenção!
Na infância, especialmente nos primeiros anos de vida, a capacidade de compreender acontecimentos complexos ainda está em desenvolvimento. Isso não impede, entretanto, que a criança observe atentamente o comportamento dos adultos e atribua significados ao que escuta.
Uma conversa exaltada, uma expressão repetida frequentemente ou uma notícia acompanhada de fortes reações emocionais pode despertar sua curiosidade.
A criança pode não compreender o funcionamento de uma eleição, as diferenças entre propostas políticas ou os motivos de determinada disputa. Mas percebe quando um assunto desperta entusiasmo, indignação, medo ou preocupação nas pessoas ao seu redor. E é justamente nesse encontro entre observação e imaginação que a fantasia infantil ganha espaço.
Uma informação parcialmente compreendida pode se transformar em uma narrativa grandiosa. Personagens públicos podem assumir características de heróis ou vilões, e discussões políticas podem aparecer nas brincadeiras como verdadeiras batalhas entre o bem e o mal.
Isso acontece porque o pensamento infantil, especialmente na primeira infância, ainda está desenvolvendo a capacidade de diferenciar interpretações subjetivas, fantasias e acontecimentos concretos.
Por isso, nem sempre aquilo que a criança afirma com convicção corresponde a uma compreensão real do assunto. A criança pode reproduzir um discurso adulto sem compreender o peso das palavras que utiliza.
Existe, porém, um aspecto que merece atenção:
As crianças não aprendem apenas com aquilo que ensinamos intencionalmente. Elas aprendem observando como nos comportamos, como reagimos diante de situações e como tratamos as pessoas que pensam de maneira diferente.
Se uma criança cresce ouvindo que determinadas pessoas são inimigas, que opiniões divergentes devem ser combatidas ou que alguém merece ser ridicularizado por suas escolhas políticas, essas mensagens podem influenciar sua maneira de compreender as relações sociais.
O problema não está em uma criança demonstrar curiosidade sobre política. Pelo contrário, o interesse por questões sociais pode representar uma oportunidade importante para o desenvolvimento da cidadania, da argumentação e do pensamento crítico.
A preocupação surge quando o universo infantil passa a reproduzir rivalidades, hostilidades e medos que pertencem ao mundo dos adultos. Precisamos compreender que uma criança não deve carregar a responsabilidade de defender posicionamentos políticos familiares, muito menos sentir que precisa escolher lados para ser aceita.
A infância é um período fundamental para a construção da identidade, da autonomia e da capacidade de pensar. E isso exige espaço para perguntar, experimentar, discordar e desenvolver opiniões progressivamente.
Entre o engraçado e o preocupante: o que devemos observar?
É natural acharmos engraçado quando uma criança reproduz uma expressão política com a seriedade de um comentarista de televisão. A espontaneidade infantil realmente proporciona momentos divertidos.
Entretanto, como psicóloga, considero importante olharmos além do humor dessas situações. O que essa criança está compreendendo? Que sentimentos estão associados às palavras que utiliza? Ela está simplesmente brincando ou demonstrando preocupação com acontecimentos que não consegue interpretar?
Essas perguntas fazem diferença. Uma criança que reproduz uma discussão política durante uma brincadeira não está, necessariamente, apresentando sofrimento emocional. Muitas vezes, trata-se apenas de imitação e elaboração simbólica, processos comuns ao desenvolvimento infantil.
Por outro lado, quando determinadas informações provocam medo persistente, ansiedade, insegurança ou conflitos recorrentes com outras crianças, precisamos investigar o contexto em que estão sendo recebidas.
A fantasia infantil é uma ferramenta valiosa para compreender e elaborar experiências. Mas, quando o mundo adulto oferece informações excessivamente ameaçadoras ou confusas, a imaginação também pode ampliar preocupações.
É nesse momento que a presença de adultos emocionalmente disponíveis faz toda a diferença.
Quando uma criança demonstra curiosidade sobre um assunto político, podemos explicar de maneira simples, concreta e apropriada à sua idade. Podemos ensinar que as pessoas têm opiniões diferentes, que existem regras de convivência e que decisões coletivas fazem parte da vida em sociedade.
Mais importante do que transmitir nossas preferências é ajudá-la a desenvolver recursos para compreender o mundo. A família é uma referência fundamental na formação dos valores infantis, mas essa influência precisa caminhar ao lado do respeito à individualidade e da construção gradual da autonomia.
A infância precisa continuar sendo território de descobertas
Em meio a tantas discussões, notícias e disputas, talvez estejamos esquecendo de algo essencial: as crianças precisam ter o direito de viver sua infância.
Precisam brincar, imaginar, criar histórias, fazer perguntas aparentemente absurdas e descobrir o mundo sem assumir precocemente o peso dos conflitos adultos.
Isso não significa afastá-las da realidade, mas apresentá-la com responsabilidade, sensibilidade e respeito ao seu desenvolvimento.
A política faz parte da sociedade e, naturalmente, também poderá fazer parte das descobertas infantis. O que não podemos permitir é que a polarização substitua a curiosidade, que a hostilidade ocupe o lugar do diálogo ou que a necessidade de pertencer silencie a liberdade de pensar.
Porque, no final das contas, quando uma criança nos surpreende reproduzindo uma discussão política, talvez ela esteja nos oferecendo algo muito maior do que um momento engraçado.
Ela está nos mostrando o quanto o mundo adulto chega até ela.
E fica uma reflexão: se as crianças estão repetindo aquilo que escutam, que tipo de mundo estamos ensinando a elas a reproduzir?
Érika Ricci é psicóloga clínica, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, com atuação no atendimento de crianças, adolescentes, adultos e famílias. É proprietária do Espaço Clínico Jardim da Consciência, em São Caetano do Sul (SP), e colunista do Portal Som de Papo.
Instagram: @erikaricci.psico | @jardim_da_consciencia_by_erika
📱 WhatsApp: (11) 9 5636-6017
📷 Instagram: @erikaricci.psico
📍 São Caetano do Sul – SP | Atendimento presencial e online
WhatsApp: https://wa.me/5511956366017



