Por Érika Ricci
Na semana passada, refletimos sobre uma pergunta que inquieta muitas famílias: “Ele tem tudo. Então por que não está feliz?”. Agora, precisamos ampliar esse olhar. Será que, ao tentar oferecer tudo e evitar qualquer sofrimento, também podemos retirar dos filhos experiências necessárias para que desenvolvam confiança, autonomia e segurança emocional?
Quase sempre, a superproteção nasce do amor. Pais que conhecem as dores da vida desejam poupar os filhos de frustrações, rejeições, erros e perigos. Antecipam problemas, tomam decisões, resolvem conflitos e permanecem atentos a cada possível risco. A intenção é cuidar. Entretanto, quando a proteção se transforma em controle constante, a criança pode receber uma mensagem silenciosa: “O mundo é perigoso e você ainda não consegue enfrentá-lo”.
Essa dinâmica não produz uma única reação. Alguns filhos se tornam mais inseguros; outros, mais desafiadores. Apesar de parecerem comportamentos opostos, ambos podem revelar uma dificuldade semelhante: a autonomia não encontrou espaço para ser construída gradualmente.
Quando o filho passa a acreditar que não consegue:
Há crianças e adolescentes que respondem à superproteção recuando. Evitam situações novas, têm medo de errar, precisam de confirmação para tomar pequenas decisões e sentem grande desconforto quando precisam agir sem a presença dos pais. Podem não querer dormir fora, sair sozinhos, conversar com pessoas desconhecidas ou assumir responsabilidades compatíveis com a idade.
Quando um adulto faz repetidamente aquilo que o filho já poderia tentar, mesmo que ainda não consiga realizar perfeitamente, pode acabar impedindo que ele experimente uma sequência indispensável ao amadurecimento: tentar, errar, receber orientação, tentar novamente e perceber que é capaz.
Com o tempo, a criança pode interpretar a ajuda excessiva não apenas como cuidado, mas como confirmação de incapacidade. Em vez de pensar “meus pais estão sempre comigo”, ela pode começar a sentir “sem eles, eu não consigo”.
Quando o filho precisa desafiar para provar que é capaz:
No outro extremo, algumas crianças e, principalmente, adolescentes reagem ao excesso de controle enfrentando regras, omitindo informações ou assumindo riscos. Quanto menos espaço encontram para participar das próprias escolhas, maior pode ser a necessidade de conquistar liberdade de maneira impulsiva.
O filme *Procurando Nemo* oferece uma imagem bastante clara dessa dinâmica. Marlin ama profundamente o filho e, depois de vivenciar uma perda traumática, tenta protegê-lo de todos os perigos. Nemo, porém, deseja descobrir o mundo e mostrar que é capaz. Em determinado momento, ao sentir-se desacreditado e controlado, ele ultrapassa o limite estabelecido pelo pai e se coloca em risco.
Nemo não desafia apenas porque é “desobediente”. Ele tenta provar uma competência que sente que o pai não consegue reconhecer. Quanto mais Marlin demonstra medo, mais Nemo sente necessidade de mostrar independência. O conflito nos lembra que a autonomia impedida por muito tempo pode aparecer mais tarde como confronto.
Isso não significa que todo comportamento desafiador seja consequência da superproteção, nem que os pais sejam culpados pelas dificuldades emocionais dos filhos. Temperamento, fase do desenvolvimento, ambiente, relações sociais e saúde mental também precisam ser considerados. Mas vale observar se o excesso de controle está contribuindo para aumentar a insegurança ou a necessidade de rompimento.
Proteger não é eliminar todas as dificuldades:
Nenhum pai precisa abandonar o cuidado para promover autonomia. A questão não é deixar o filho sozinho diante de situações para as quais ainda não está preparado. Trata-se de oferecer desafios possíveis, compatíveis com a idade, mantendo presença e orientação.
Uma criança desenvolve segurança quando pode escolher entre alternativas adequadas, assumir pequenas responsabilidades, participar da solução de problemas e perceber que o erro não destrói o vínculo com os pais. Um adolescente amadurece quando encontra limites claros, mas também espaço crescente para opinar, negociar e lidar com as consequências de suas escolhas.
Antes de intervir imediatamente, os pais podem se perguntar: “Meu filho realmente não consegue fazer isso ou eu estou com dificuldade de permitir que ele tente?”. Também é importante substituir algumas respostas prontas por perguntas que estimulem reflexão: “O que você pensa em fazer?”, “De que ajuda você precisa?” e “Qual pode ser a consequência dessa escolha?”.
Filhos não precisam de pais indiferentes, mas de adultos que sejam uma base segura. Uma base à qual possam retornar quando algo der errado, sem que isso signifique nunca poder se afastar para experimentar o mundo.
Oferecer tudo materialmente, evitar todas as frustrações ou resolver cada dificuldade não garante felicidade. O que fortalece uma criança é sentir-se amada e, ao mesmo tempo, reconhecida como alguém que pode aprender, contribuir, escolher e crescer.
Proteger também é preparar. É permanecer por perto sem ocupar o lugar que, aos poucos, precisa ser do filho. Afinal, o objetivo da criação não é formar alguém que nunca enfrente dificuldades, mas alguém que desenvolva recursos emocionais para atravessá-las — sabendo que possui apoio, mas também descobrindo que é capaz.
Erika Ricci – Psicóloga Clínica
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