Por Carla Perin
@cacaperin
Você já viu uma cadela carregar um brinquedo pela casa, colocá-lo na caminha e protegê-lo como se fosse um filhote? Talvez ela comece a fazer um ninho, fique mais quieta ou, ao contrário, mais inquieta. Algumas choram, procuram lugares escondidos e não querem que ninguém se aproxime dos objetos que escolheram para cuidar. Ao mesmo tempo, as mamas podem aumentar e até começar a produzir leite. Para quem observa de fora, parece que aquela cadela realmente acredita que se tornou mãe. É o que popularmente chamamos de gravidez psicológica. Na Medicina Veterinária, o nome mais adequado é pseudociese ou pseudogestação.E existe algo importante para compreender: não é simplesmente psicológico. Depois do cio, o organismo da cadela passa naturalmente por mudanças hormonais, mesmo que ela não tenha cruzado e não esteja gestante. Durante algumas semanas, a progesterona permanece elevada. Depois, quando esse hormônio diminui, outro hormônio chamado prolactina ganha importância. A prolactina está envolvida na produção de leite e também no comportamento materno. Em algumas cadelas, essa resposta hormonal é tão intensa que o organismo começa a apresentar sinais muito parecidos com os de uma verdadeira maternidade. É aí que aparecem as mudanças. As mamas podem aumentar, pode haver produção de leite e alterações no apetite. Mas o comportamento também pode mudar bastante. A cadela pode começar a construir ninhos com mantas e cobertores, carregar brinquedos, bichinhos de pelúcia ou outros objetos e tratá-los como se fossem seus filhotes. Algumas passam horas junto deles. Outras ficam extremamente protetoras e podem rosnar quando alguém tenta se aproximar. Também podem aparecer inquietação, choramingos, maior necessidade de contato, irritabilidade ou mudanças na rotina. Por isso, quando uma cadela apresenta pseudociese, não devemos interpretar seu comportamento como “manha”, ciúme ou simplesmente excesso de apego. Ela não decidiu racionalmente que aquele brinquedo é seu filhote. Seu corpo está ativando mecanismos relacionados à maternidade e seu comportamento acompanha esse processo. Na maioria das vezes, a pseudociese tende a desaparecer com o passar das semanas. Mas alguns animais apresentam sinais mais intensos e precisam de acompanhamento veterinário. Produção excessiva de leite, dor ou inflamação nas mamas, alterações importantes de comportamento ou episódios que se repetem após os cios merecem atenção.
Um cuidado importante é não ficar apertando ou retirando o leite das mamas sem orientação veterinária. Quanto mais estímulo a mama recebe, maior pode ser a manutenção da produção de leite. A lambedura excessiva também pode estimular essa produção. E aqueles brinquedos que ela adotou?
Também é preciso cuidado. Retirar bruscamente um objeto que a cadela está protegendo intensamente pode gerar ansiedade e até uma reação agressiva. O manejo deve considerar o comportamento daquele animal, reduzindo gradualmente os estímulos maternos e oferecendo outras atividades, passeios, brincadeiras e oportunidades de exploração. Quando os episódios são recorrentes, a castração pode fazer parte da prevenção, mas o momento adequado do procedimento deve ser discutido com o médico-veterinário. Talvez a pseudociese nos ensine algo muito bonito sobre a maneira como observamos os animais. Nem todo comportamento começa apenas naquilo que vemos. Às vezes, uma cadela carregando cuidadosamente um ursinho pela casa está mostrando, através de seu comportamento, uma transformação hormonal que acontece silenciosamente dentro dela.
Antes de tentar interromper um comportamento, precisamos compreender o que está acontecendo com aquele animal.
Porque quando compreendemos o corpo, também compreendemos melhor aquilo que ele expressa.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



