Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Não falo da liberdade que se celebra em praça pública, com bandeiras e hinos, mas daquela que se negocia em silêncio, no espaço íntimo entre duas pessoas. A independência que me interessa hoje não está no grito do Ipiranga, mas na coragem de dizer, baixinho, para si mesmo: chega. Ou, às vezes, fica.
Há alguns anos, vi uma cena que não saiu mais da minha cabeça. Uma mulher, no meio de um restaurante movimentado, ria alto com o parceiro. Parecia leve, entregue ao momento. Mas, quando ele se levantou para ir ao banheiro, a máscara caiu. Ela ficou ali, sozinha, com o olhar perdido, girando o anel no dedo, como se aquilo fosse um amuleto para adiar uma decisão. Não era tristeza, era cansaço. Um cansaço de quem já não sabe se está ali por escolha ou por inércia. A liberdade dela estava em disputa, e ela nem tinha coragem de admitir.
Outra cena, mais recente. Um amigo me ligou no meio da madrugada. Não chorava, mas sua voz tremia. Ele havia terminado um relacionamento de oito anos. Não por traição, não por briga. Porque, um dia, olhou para si mesmo e percebeu que não se reconhecia mais. Disse assim: “Eu não sei quem eu sou fora desse nós.” A independência afetiva, para ele, não foi um ato heroico. Foi um resgate. Um retorno lento, doloroso, mas necessário.
A gente aprende cedo que liberdade é não ter correntes. Mas, com o tempo, descubro que as correntes mais pesadas são invisíveis. Elas se tecem em promessas que não fizemos, em expectativas que não escolhemos, em medos que não são nossos. Amar não deveria ser sinônimo de renúncia. Amar deveria ser um convite à presença, não um contrato de silêncio.
Quando falo em autonomia afetiva, não estou falando de frieza, nem de individualismo. Falo de um tipo de lucidez que nasce do afeto por si mesmo. É possível amar e, ainda assim, manter um pé no próprio chão. É possível entregar o coração sem entregar o destino. É possível permanecer porque se escolhe, não porque se teme a solidão ou o julgamento alheio.
A virada, para mim, veio quando percebi que a independência afetiva não é um ponto de chegada, mas um exercício diário. É escolher, de novo e de novo, se aquilo que vivo ainda faz sentido. É ter coragem de perguntar: o que eu ganho e o que eu perco ao permanecer aqui? É aceitar que, às vezes, o amor não basta. Que o respeito, a reciprocidade e a possibilidade de ser verdadeiro são tão essenciais quanto o desejo.
Não é simples. Não é bonito em todas as fotos. Muitas vezes, a decisão de sair dói mais do que a permanência. Mas há uma dignidade silenciosa em quem decide por si mesmo, mesmo que o mundo ao redor diga que deveria ser diferente. E há, também, uma dignidade em quem escolhe ficar, mas agora com consciência, com presença, com verdade.
No fim das contas, a independência afetiva é uma espécie de independência nacional do coração. É declarar, sem alarde, que sua vida emocional pertence a você. Que você pode amar, mas não precisa se perder. Que pode despedir-se, mas não precisa se culpar. Que pode recomeçar, mesmo que o resto do mundo ainda esteja comemorando o Sete de Setembro.
Se eu pudesse deixar uma ideia para você guardar, seria esta: liberdade dentro de um vínculo não é ausência de compromisso, é presença escolhida. É saber que, mesmo de mãos dadas, cada um caminha com seus próprios pés. E isso, por si só, já é revolucionário.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
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Credito da imagem: Ирина Самсонова



