Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Às vezes, eu não preciso de uma resposta imediata. Preciso apenas parar de fugir da pergunta: como eu realmente estou?
Essa pergunta parece simples, mas nem sempre é fácil respondê-la. Muitas vezes, eu sigo o dia no automático. Cumpro compromissos, respondo mensagens, sorrio quando esperam que eu sorria e digo “está tudo bem” antes mesmo de perceber o que estou sentindo. Só mais tarde, quando o silêncio chega, o corpo revela aquilo que eu tentei ignorar: um aperto no peito, uma irritação sem nome, um cansaço que não passa, uma vontade de me afastar de todos.
Estamos em pleno Setembro Amarelo, um período importante de conscientização sobre saúde mental. Para mim, falar sobre esse tema também é lembrar que o cuidado não começa apenas quando a dor se torna insuportável. Ele pode começar antes, no instante em que eu reconheço que algo em mim precisa de atenção.
Penso, por exemplo, naquela pessoa que recebe uma mensagem e sente o coração disparar. Ela lê e relê as palavras, tenta descobrir se o outro está distante, preocupado ou simplesmente ocupado. Em poucos minutos, já imaginou o fim da relação. Para evitar o abandono, manda várias mensagens, pede desculpas sem saber exatamente pelo quê e abandona a própria tranquilidade para tentar controlar a resposta de alguém.
Também penso em quem chega em casa depois de um dia difícil, mas continua dizendo que não foi nada. Não quer preocupar ninguém, não quer parecer fraco, não quer “dar trabalho”. Então guarda tudo. A tristeza fica escondida atrás da rotina; a raiva, atrás do silêncio; o medo, atrás de uma aparente força.
Eu não acredito que se escutar seja encontrar imediatamente uma solução para tudo. Muitas vezes, ouvir a si mesmo é apenas conseguir dizer: “isso me machucou”, “eu estou com medo”, “essa relação está me fazendo mal” ou “eu não tenho condições de continuar fingindo que está tudo bem”.
Esse reconhecimento já é um movimento de cuidado. Não porque elimina a dor, mas porque interrompe a solidão dentro de nós.
Quando eu percebo o que sinto, começo a recuperar a possibilidade de escolher como agir. Posso conversar, pedir ajuda, estabelecer um limite, descansar ou simplesmente esperar antes de tomar uma decisão. Isso é autonomia afetiva: não significa deixar de precisar das pessoas, nem se tornar indiferente. Significa não entregar completamente a alguém a responsabilidade pela minha paz, pelo meu valor ou pela definição de quem eu sou.
Há uma diferença importante entre estar acompanhado e estar abandonado de si mesmo. Eu posso amar alguém e, ainda assim, perceber que estou me anulando. Posso desejar uma relação e, ao mesmo tempo, compreender que não preciso aceitar qualquer forma de presença para não enfrentar a ausência. Posso acolher o outro sem desaparecer de mim.
Talvez essa seja a virada que mais precisamos fazer: entender que escutar a própria dor não é alimentá-la. É impedir que ela precise gritar para ser reconhecida.
E, quando a dor parecer grande demais, pedir ajuda também será uma forma de autonomia. Conversar com alguém de confiança ou buscar acompanhamento profissional não diminui ninguém. Ao contrário: revela a coragem de não enfrentar tudo sozinho.
Neste Setembro Amarelo, eu quero deixar um convite simples: antes de tentar resolver a vida inteira, pare por alguns minutos e escute o que está acontecendo aí dentro. Sem pressa, sem julgamento e sem a obrigação de ter todas as respostas.
Porque, muitas vezes, o primeiro gesto de preservação não é mudar tudo.
É voltar para si.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353
Credito da imagem: Anabel Mendoza



