Por Karen Goldberg
A expressão “os olhos são a janela da alma” é um clichê, mas carrega uma verdade profunda. No entanto, quando associamos essa ideia à arte e à arquitetura, sua complexidade se revela de forma inesperada. Um bom exemplo disso é a pintura de René Magritte*, que nos faz questionar o que realmente vemos. Na série de pinturas “A condição humana”**, uma tela posicionada diante de uma janela parece retratar fielmente a paisagem exterior. Mas será que estamos vendo a paisagem real ou apenas uma interpretação criada pelo artista?
A primeira impressão nos leva a crer que a pintura no cavalete representa exatamente o que está do lado de fora. No entanto, percebemos que essa suposição é enganosa: tanto a tela quanto a cena ao redor fazem parte da mesma obra de arte. Magritte nos desafia a enxergar a ironia desse jogo visual, onde confundimos representação e realidade.
Essa reflexão se aplica diretamente à arquitetura. Uma janela não é apenas um elemento funcional de um edifício; ela é um portal entre interior e exterior, uma moldura que orienta nossa percepção do espaço. Assim como os olhos revelam o que há por trás das aparências, as aberturas de um edifício podem expor ou esconder sua verdadeira essência. Projetar uma construção não se resume a criar algo visualmente agradável, mas a pensar nesses “olhos” arquitetônicos de forma que promovam uma interação honesta entre forma, função e ambiente.
No entanto, transparência não significa exposição total. Assim como os cílios protegem os olhos sem impedir a visão, elementos como venezianas, muxarabis e cobogós filtram a luz, controlam a ventilação e preservam a privacidade sem comprometer a conexão entre interior e exterior.
A pintura de Magritte e o ditado popular nos convidam a um olhar mais atento sobre o espaço construído. Mais do que apenas enquadrar vistas, as janelas da arquitetura são dispositivos sensíveis, que revelam, protegem e respiram. Ao abrirmos esses portais, não buscamos apenas a beleza do exterior, mas a harmonia entre o que se vê e o que se vive.
Até a próxima,
Arq. Karen Goldberg
Kapa Arquitetura
@kaparquitetura
Referências:
*René Magritte – artista Belga nascido em 1898 e falecido em 1967.
** “A Condição Humana” é uma série de pinturas da década de 1930, feitas pelo pintor René Magritte, pertencente ao movimento surrealista.




Karen, seu texto me fez viajar entre a arte e a arquitetura de um jeito que nunca tinha parado para pensar. A forma como você conecta Magritte à nossa percepção do espaço é fascinante! Me fez refletir sobre como, muitas vezes, enxergamos apenas o que queremos ou o que nos é permitido ver. Obrigada por esse convite a olhar além!