Por André Henrique
Estradas são fundamentais para o desenvolvimento econômico e para a mobilidade das pessoas, mas também podem representar uma barreira perigosa para a fauna silvestre. Quando uma rodovia corta uma floresta, não divide apenas a paisagem: ela pode separar populações de animais, dificultar a busca por alimento e parceiros reprodutivos e, principalmente, aumentar o risco de atropelamentos.
Na Amazônia, uma iniciativa relativamente simples está mostrando que é possível reduzir parte desse impacto. São as chamadas pontes de dossel, estruturas instaladas sobre estradas e avenidas para permitir que macacos e outros animais arborícolas atravessem de um fragmento florestal para outro sem precisar descer ao solo.
E os resultados chamam a atenção.
Em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, o programa Alta Floresta Não Atropela, desenvolvido em parceria com o Projeto Reconecta, instalou pontes artificiais ligando áreas de vegetação separadas pelas vias. Câmeras instaladas nas estruturas passaram a registrar silenciosamente a movimentação dos animais.
Em aproximadamente 15 meses de monitoramento, foram contabilizadas quase 15 mil travessias de animais silvestres, segundo dados divulgados pelo IPÊ. Mais recentemente, a Prefeitura de Alta Floresta informou que o número já havia ultrapassado 17 mil passagens nos pontos monitorados. Mais importante que a quantidade de travessias é outro resultado: nos locais diretamente atendidos pelas estruturas, não foram registrados novos atropelamentos de primatas desde a implantação das pontes.
Uma estrada pode dividir uma floresta
A fragmentação de habitats está entre os grandes problemas enfrentados pela biodiversidade. Uma estrada atravessando uma floresta pode funcionar como uma verdadeira barreira ecológica.
Para espécies que vivem predominantemente nas árvores, o problema é ainda maior. Algumas evitam descer ao solo e acabam isoladas em determinados fragmentos. Outras tentam atravessar a pista e ficam expostas aos veículos.
Essa separação pode comprometer a movimentação dos animais e, ao longo do tempo, afetar também o fluxo gênico entre populações. Além disso, animais que se deslocam pela floresta participam de processos ecológicos fundamentais, incluindo a dispersão de sementes.
É justamente nesse ponto que as pontes de dossel se tornam interessantes: elas não servem apenas para impedir que um animal seja atropelado. Elas ajudam a restabelecer a conectividade da paisagem.
Entre os animais registrados utilizando as estruturas em Alta Floresta estão o macaco-aranha-de-cara-preta (Ateles chamek), o bugio-vermelho-do-purus (Alouatta puruensis), o macaco-da-noite (Aotus infulatus), o macaco-prego (Sapajus apella), o mico-de-schneider (Mico schneideri) e o zogue-zogue-de-alta-floresta (Plecturocebus grovesi).
Este último merece atenção especial. Descrito cientificamente apenas em 2019, o zogue-zogue-de-alta-floresta tornou-se uma das espécies-símbolo do projeto e representa muito bem a enorme biodiversidade que ainda precisa ser protegida na Amazônia.
Ciência acima das rodovias
As estruturas desenvolvidas pelo Projeto Reconecta são formadas por elementos como cabos de aço, cordas e redes e foram projetadas para permitir diferentes formas de locomoção. Isso é importante porque nem todos os primatas atravessam uma estrutura da mesma maneira.
Macacos-aranha, por exemplo, podem se locomover utilizando os braços e a cauda preênsil, enquanto outras espécies caminham sobre a estrutura. Até outros mamíferos, como preguiças, gambás e cuícas, já foram observados utilizando pontes desse tipo.
O projeto também mostrou algo importante para qualquer programa de monitoramento de fauna: os animais precisam de tempo para se adaptar às medidas implantadas.
Em Alta Floresta, por exemplo, houve espécie que demorou meses até começar a utilizar a passagem. Portanto, avaliar a eficiência de uma medida de mitigação logo após sua instalação pode produzir uma conclusão equivocada.
Conservação exige planejamento, monitoramento e tempo.
Da Amazônia para o Brasil
O trabalho não começou em Alta Floresta. Em 2021, o Projeto Reconecta, em conjunto com o povo indígena Waimiri-Atroari e outras instituições, começou a instalar pontes de dossel na BR-174, entre Amazonas e Roraima.
O conhecimento tradicional teve papel importante. Os indígenas participaram da definição de locais estratégicos para instalação das estruturas e mais de 150 indígenas participaram da construção e instalação das pontes artificiais.
Ao longo dos anos, aproximadamente 1.250 travessias de primatas foram registradas nas estruturas da BR-174, permitindo também que os pesquisadores avaliassem quais modelos eram mais utilizados pelos animais.
O projeto ganhou tanta relevância que o DNIT passou a incorporar essas experiências às estratégias de mitigação dos impactos das rodovias sobre a fauna. Em publicação técnica lançada em 2026, o órgão apresenta as pontes artificiais de dossel entre as medidas aplicáveis à conservação da fauna em rodovias federais.
E a ideia começa a ultrapassar as fronteiras amazônicas.
Na BR-262, no Mato Grosso do Sul, um amplo plano de mitigação prevê, além de cercamentos, passagens inferiores, radares e adaptações em estruturas existentes, sete pontes artificiais de dossel destinadas especificamente à fauna arborícola.
A expectativa é que soluções semelhantes possam alcançar outros biomas, incluindo o Pantanal e a Mata Atlântica.
Desenvolvimento e conservação podem caminhar juntos
Talvez essa seja a principal mensagem deixada pelo projeto.
Não é realista imaginar um país sem estradas. Rodovias são essenciais para transportar pessoas, alimentos, matérias-primas e produtos. Entretanto, infraestrutura e conservação ambiental não precisam necessariamente ocupar lados opostos.
O desafio está em planejar melhor os empreendimentos e incorporar medidas capazes de reduzir seus impactos.
Passagens de fauna, cercamentos direcionadores, sinalização, controle de velocidade, monitoramento por câmeras e pontes de dossel são exemplos de ferramentas que podem tornar a infraestrutura rodoviária mais compatível com a biodiversidade.
As milhares de travessias registradas em Alta Floresta mostram isso de maneira bastante concreta.
Às vezes, uma grande solução ambiental não exige uma obra gigantesca. Pode ser uma estrutura relativamente simples suspensa entre duas árvores.
Para nós, é apenas uma ponte.
Para um animal cercado por estradas, pode representar a diferença entre continuar seu caminho ou morrer tentando atravessá-lo.
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André Henrique de Rezende Almeida
@BIOLOGOANDREHENRIQUE
Biólogo CRBIO 10: 60.945
Engenheiro Ambiental CREA: ES-055476/D



