Por Carla Perin
@cacaperin
A cena é conhecida: o cachorro senta, estica as patas dianteiras e começa a arrastar o bumbum pelo chão. Às vezes faz isso no tapete, no sofá ou justamente quando há uma visita na sala. Pode até parecer engraçado, mas quando esse comportamento se repete, geralmente existe uma razão para ele. Na Medicina Veterinária, esse movimento é chamado de “scooting” e costuma indicar que alguma coisa está causando coceira, irritação, pressão ou desconforto na região ao redor do ânus. Uma das causas mais comuns está nas glândulas anais, mais corretamente chamadas de sacos anais. São duas pequenas estruturas localizadas lateralmente ao ânus que armazenam uma secreção de odor bastante característico. Normalmente, essa secreção é eliminada durante a evacuação. Porém, em alguns cães, os sacos anais podem não esvaziar adequadamente. A secreção se acumula, fica mais espessa e provoca incômodo. O cachorro então encontra uma maneira bastante prática de tentar aliviar a sensação: arrasta a região no chão. Mas nem todo cachorro que faz isso está com os sacos anais cheios. Parasitas intestinais, principalmente aqueles que provocam irritação na região anal, alergias, dermatites, fezes persistentemente amolecidas, inflamações e outras alterações da pele também podem provocar esse comportamento. Por isso, simplesmente esvaziar as glândulas sempre que o cão arrasta o bumbum não é necessariamente a solução. Aliás, cães saudáveis normalmente não precisam ter os sacos anais esvaziados rotineiramente. Quando o problema acontece repetidas vezes, é mais importante investigar por que eles não estão se esvaziando naturalmente. A consistência das fezes pode fazer parte dessa investigação. Fezes bem formadas ajudam a exercer pressão sobre os sacos anais durante a evacuação, favorecendo a liberação da secreção. Quando as fezes permanecem muito moles, esse mecanismo pode não funcionar tão bem, também existem cães mais predispostos a apresentar problemas nessa região, e episódios recorrentes podem evoluir para inflamação, infecção e até formação de abscessos. Alguns sinais merecem ainda mais atenção: lambedura insistente do ânus, dificuldade ou dor para evacuar, cheiro muito forte, inchaço ao lado do ânus, presença de sangue ou secreção e desconforto quando alguém toca a região. Nessas situações coes, é importante procurar o médico-veterinário. E os vermes? Embora muita gente associe imediatamente o cachorro arrastando o bumbum a verminose, essa é apenas uma das possibilidades. Um exemplo clássico é a tênia Dipylidium caninum, cujos segmentos podem provocar irritação ao redor do ânus. Curiosamente, esse parasita está relacionado às pulgas: o cão se infecta ao ingerir uma pulga contaminada.
É mais um motivo para lembrarmos que vermifugação, controle de pulgas, alimentação adequada, saúde intestinal e acompanhamento veterinário fazem parte de um mesmo cuidado preventivo. No fim, aquele movimento aparentemente engraçado pode carregar uma informação importante. Os animais não conseguem nos dizer: “está coçando”, “está ardendo” ou “alguma coisa está me incomodando”. E talvez uma das partes mais bonitas de conviver com um animal seja justamente aprender essa linguagem. Observar uma mudança, perceber um comportamento diferente e não simplesmente corrigi-lo ou ignorá-lo. Porque comportamento também é comunicação.
E quando aprendemos a observar, o corpo do animal muitas vezes nos conta aquilo que ele não consegue dizer em palavras.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



