Por Dayse Batista
@dayseperita
Na perícia, formular uma hipótese é necessário. O perigo começa quando passamos a procurar apenas aquilo que pode confirmá-la.
Uma bebê de dez meses morre em Fortaleza. No atendimento hospitalar, uma lesão levanta uma suspeita extremamente grave: possível violência sexual.
Dois homens são presos em flagrante e o caso rapidamente ganha repercussão.
Dias depois, a perícia apresenta uma conclusão diferente.
O caso da bebê Helena Almeida, ocorrido em julho de 2026, é um exemplo atual de por que, na ciência forense, suspeita, hipótese e conclusão não podem ser tratadas como sinônimos.
Segundo informações divulgadas pela Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce), o exame cadavérico concluiu que a morte ocorreu por asfixia mecânica indireta. Os exames sexológicos não apontaram violência sexual e também não foram encontrados sêmen ou material genético dos dois homens inicialmente envolvidos no corpo da criança. A investigação mudou de direção e passou a tratar o caso como homicídio culposo.
O ponto mais importante aqui não é criticar a suspeita inicial.
Diante de uma possível violência contra uma criança, investigar era absolutamente necessário.
O problema surge quando uma hipótese deixa de ser uma possibilidade a ser testada e passa a ser tratada como verdade antes que os vestígios sejam analisados.
O cérebro procura aquilo em que acredita, Chamamos isso de viés de confirmação.
É a tendência de valorizar informações que sustentam aquilo em que já acreditamos e dar menor importância aos elementos que contradizem nossa convicção inicial.
Esse fenômeno não acontece apenas com leigos. Investigadores, médicos, peritos, advogados e julgadores são seres humanos e, portanto, também estão sujeitos a vieses cognitivos.
Imagine um veículo encaminhado para perícia com a informação: “este carro foi adulterado”.
Antes mesmo de examiná-lo, uma narrativa já foi entregue ao perito.
Ou um acidente acompanhado da afirmação: “o motorista estava em alta velocidade”.
A partir daí, existe um risco silencioso: deixar de investigar o que aconteceu para começar a procurar como provar aquilo que disseram que aconteceu.
O vestígio não conhece a versão, não sabe quem é o suspeito. Não assistiu à reportagem.Não leu os comentários nas redes sociais.Não sabe qual versão parece mais convincente.Ele simplesmente existe.
Por isso, uma das responsabilidades do perito é trabalhar também contra a própria hipótese.
Se acredito que um acidente aconteceu em alta velocidade, devo procurar não apenas os elementos que sustentam essa possibilidade, mas também aqueles que poderiam afastá-la.
Se suspeito de adulteração veicular, preciso considerar se existe uma explicação legítima para aquela alteração.
Se uma lesão sugere determinado mecanismo, devo perguntar: que outros mecanismos seriam capazes de produzir um achado semelhante?
É nesse ponto que a ciência se distancia da opinião.
A perícia não existe para confirmar histórias
No caso Helena, a suspeita inicial de violência sexual surgiu a partir do atendimento hospitalar. O protocolo de encaminhamento mencionava laceração anal e suspeita de asfixia e abuso sexual. A perícia oficial posteriormente concluiu pela asfixia mecânica indireta e não confirmou violência sexual.
Esse contraste ensina algo fundamental.
Um achado isolado não deve ser obrigado a caber dentro de uma narrativa.
Ele precisa ser confrontado com outros vestígios, exames complementares, circunstâncias e hipóteses alternativas.
E isso exige uma postura difícil para qualquer profissional: admitir que a primeira interpretação pode estar errada.
Talvez uma das perguntas mais importantes durante uma perícia seja justamente:
“O que eu precisaria encontrar para demonstrar que minha hipótese está errada?”
Essa pergunta protege o exame contra o chamado efeito túnel quando toda a investigação passa a enxergar apenas uma direção.
Em tempos de julgamentos instantâneos, redes sociais e pressão por respostas rápidas, a perícia precisa fazer exatamente o contrário.
Examinar antes de afirmar.Testar antes de concluir.E permitir que os vestígios contrariem até mesmo aquilo que parecia óbvio no início.
Porque o bom perito não trabalha para provar uma hipótese. Trabalha para descobrir se ela resiste à prova.



