Por Ana Paula Maia Angélicoa
Advogada
A eleição acontece nas cidades e no campo, mas seus efeitos podem ser sentidos antes mesmo de o primeiro voto ser depositado na urna. Isso ocorre porque o agronegócio depende de decisões que ultrapassam os limites da propriedade rural. Crédito, juros, câmbio, infraestrutura, tributação, legislação ambiental e relações comerciais são fatores diretamente influenciados pelas escolhas políticas e econômicas do país.
Em períodos eleitorais, produtores, cooperativas, indústrias e investidores passam a observar com mais cautela as propostas apresentadas pelos candidatos. Dependendo do grau de incerteza, decisões importantes podem ser adiadas: compra de máquinas, ampliação de armazéns, contratação de financiamentos e expansão da produção.
Produzir no campo exige planejamento e, frequentemente, financiamento. O Plano Safra é um dos principais instrumentos da política agrícola brasileira, pois reúne recursos destinados ao custeio, à comercialização e aos investimentos na atividade rural. Por isso, mudanças de governo podem gerar expectativas sobre o volume de recursos, as taxas de juros, as exigências ambientais e as prioridades dos programas de crédito.
Os juros gerais da economia também importam. Quando permanecem elevados, máquinas, sistemas de irrigação, armazenagem e capital de giro ficam mais caros. O Banco Central destaca que políticas econômicas internas, expectativas de inflação e variações cambiais influenciam a condução dos juros e as condições de crédito.
Boa parte dos fertilizantes, defensivos, equipamentos e componentes tecnológicos utilizados no campo possui relação com o mercado internacional. Quando o período eleitoral aumenta a volatilidade do dólar, os custos de produção podem subir. Por outro lado, uma moeda estrangeira valorizada pode favorecer determinadas receitas de exportação.
Essa aparente vantagem, porém, não beneficia todos da mesma forma. O produtor pode receber mais pela mercadoria exportada e, ao mesmo tempo, pagar mais caro pelos insumos necessários à próxima safra.
As eleições também influenciam decisões sobre rodovias, ferrovias, portos, armazenagem, energia e conectividade rural. Não basta produzir bem. É necessário transportar, armazenar e comercializar com eficiência. Quando faltam estradas adequadas ou capacidade de armazenamento, parte do resultado conquistado no campo pode ser perdida na logística.
Além disso, o setor precisa de previsibilidade. Mudanças repentinas em regras ambientais, tributárias, trabalhistas ou fundiárias podem aumentar custos e dificultar investimentos de longo prazo.
O produtor organiza sua atividade por safras. A política, muitas vezes, trabalha por mandatos. O desafio é impedir que cada eleição interrompa planejamentos que precisam durar muitos anos.
O agronegócio brasileiro depende de mercados estrangeiros. As posições adotadas pelo futuro governo em negociações comerciais, acordos internacionais, exigências ambientais e relações diplomáticas podem abrir mercados ou criar obstáculos às exportações.
Por isso, o campo não observa apenas promessas de crédito. Também acompanha quais serão as estratégias para manter compradores, ampliar mercados e assegurar a credibilidade dos produtos brasileiros.
As eleições podem trazer oportunidades para modernizar a agricultura, ampliar a conectividade, melhorar a infraestrutura e fortalecer a segurança jurídica. Mas também podem gerar incerteza quando o debate se limita a slogans e não apresenta medidas concretas.
O agronegócio não deve ser tratado apenas como número de exportação ou cenário para fotografias de campanha. Por trás da produção existem famílias, trabalhadores, cooperativas, empresas e cidades inteiras que dependem da atividade rural.
Quando o eleitor escolhe seus representantes, também ajuda a decidir como serão conduzidos o crédito, a infraestrutura, a sustentabilidade e as relações comerciais do país. A urna pode estar distante da lavoura. As decisões tomadas por meio dela, não.
Ana Paula Maia Angélico
@anapmangelico
Dra. Ana Paula Maia Angélico é advogada especialista em Direito de Família e Trabalhista, atua na área de Registro de Marcas, auxiliando empresas e profissionais na proteção jurídica de seus ativos intelectuais e fortalecimento de suas marcas e colabora em grupos de estudos de Direito do Agronegócio e Direito Ambiental.
Fontes oficiais consultadas:
Ministério da Agricultura e Pecuária — Plano Safra e políticas de crédito rural;
Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária, setembro de 2026;
Banco Central do Brasil — Ata da 281ª Reunião do Copom, setembro de 2026.


