Por Marize Reges
Nunca tivemos tantos recursos para mudar nossa imagem. A inteligência artificial consegue transformar uma fotografia em segundos: afina o rosto, modifica o corpo, suaviza a pele, muda o cabelo, troca a roupa, cria cenários e até nos apresenta mais jovens do que somos.
A tecnologia é fascinante. O problema começa quando aquilo que deveria ser uma ferramenta passa a ser uma régua.
De repente, o rosto sem marcas parece mais bonito. O corpo sem nenhuma imperfeição parece mais desejável. A mulher sem sinais do tempo parece mais aceitável.
E eu me pergunto: em que momento melhorar uma fotografia virou a necessidade de melhorar a própria existência?
Nós, mulheres maduras, temos uma história inteira para contar no rosto. Temos marcas de escolhas, de perdas, de alegrias, de maternidade, de noites mal dormidas, de recomeços. Cada fase deixou alguma coisa em nós.
Não sou contra a inteligência artificial. Muito pelo contrário. Ela pode facilitar nossa vida, ampliar possibilidades e ser uma ferramenta extraordinária. Mas existe uma diferença enorme entre usar a tecnologia para criar e usá-la para esconder quem somos.
Tenho 64 anos e não quero parecer ter 40 em uma fotografia para convencer alguém de que ainda sou interessante.
Quero continuar sendo interessante aos 64.
Quero que a minha imagem acompanhe a minha história — não que apague a minha história.
Talvez o verdadeiro luxo, em uma época em que podemos fabricar qualquer versão de nós mesmas, seja justamente este: ter coragem de continuar sendo real.
Porque uma imagem pode ser perfeita.
Mas a pergunta que fica é: quando você olha para ela, ainda se reconhece?


