*Por Dr. Julio Cesar
@nagashimajulio
A perda de um companheiro pode mudar o comportamento do animal e entender esses sinais também é uma forma de cuidar. Quem já perdeu alguém que amava sabe que o silêncio deixado pela ausência pode ser difícil de explicar.
Mas e quando quem fica é um cachorro ou um gato?
Será que ele percebe que alguém não está mais ali?
Será que sente falta?
Será que também passa por algum tipo de luto?
Essas perguntas aparecem com frequência entre os tutores, principalmente quando, depois da perda de uma pessoa ou de outro animal da casa, o pet começa a apresentar mudanças de comportamento.
Ele pode ficar mais quieto, procurar pela pessoa ou pelo companheiro que não está mais presente, dormir mais, perder o interesse pelas brincadeiras ou até mudar seus hábitos. Embora não possamos afirmar que cães e gatos vivenciem o luto exatamente da mesma maneira que os seres humanos, sabemos que eles podem perceber profundamente as mudanças provocadas pela ausência de alguém importante em sua rotina.
Eles percebem quando alguém não está mais em casa?
Imagine um cachorro que todos os dias esperava determinada pessoa chegar. Ele reconhecia o horário, os passos, a voz, o cheiro e os hábitos daquela pessoa. De repente, ela não volta mais. Para o animal, não existe uma explicação verbal sobre o que aconteceu. Existe apenas uma mudança enorme em tudo aquilo que ele conhecia. A rotina mudou, os cheiros mudaram, as interações diminuíram, a pessoa que fazia parte do seu dia a dia não está mais ali. Além disso, o próprio tutor pode estar diferente: mais silencioso, chorando, dormindo em horários diferentes ou deixando de realizar atividades que antes faziam parte da rotina.
O pet percebe essas mudanças.
E pode reagir a elas.
Como o luto pode aparecer no comportamento?
Cada animal reage de uma maneira, alguns podem ficar mais próximos do tutor e procurar mais carinho, já outros podem ficar mais quietos, dormir mais ou perder temporariamente o interesse por brincadeiras e também podem ocorrer alterações no apetite, vocalização, interação social e nos hábitos cotidianos. Esses comportamentos podem ser interpretados pelos tutores como “saudade”, talvez seja realmente uma manifestação relacionada à ausência e à mudança da rotina. Mas precisamos ter cuidado.
Não podemos transformar todo comportamento diferente em diagnóstico de luto.
Nem tudo é luto
Esse é um ponto muito importante, depois de uma perda, o animal pode realmente apresentar alterações comportamentais. Porém, isso não significa que qualquer mudança deva ser atribuída à tristeza. Um animal que para de comer pode estar reagindo à mudança emocional da casa ou pode apresentar algum problema de saúde. Por isso, principalmente quando a alteração é intensa, persistente ou acompanhada de outros sinais clínicos, uma avaliação veterinária é importante.
A perda de alguém não impede que uma doença apareça.
E uma doença também pode ser confundida com tristeza.
O tutor também precisa de cuidado
Existe ainda um aspecto que muitas vezes esquecemos, quando uma família perde alguém, todos são afetados inclusive o animal. A pessoa que cuidava do pet pode não estar mais presente. Os horários podem mudar. Os passeios podem diminuir. As brincadeiras podem desaparecer. Por isso, durante um período de luto, manter alguns elementos da rotina do animal pode ajudá-lo a enfrentar a mudança. Não é necessário esconder a tristeza do animal. Mas é importante lembrar que ele continua dependendo de nós.
E cuidar dele também pode ser uma maneira de manter algum vínculo com aquilo que mudou.
O amor não desaparece quando alguém vai embora
Talvez nunca saibamos exatamente o que um cachorro ou gato pensa diante da perda. Não podemos colocar sentimentos humanos dentro da cabeça de um animal e afirmar que ele sente exatamente como nós. Mas podemos observar, podemos reconhecer que a ausência de uma pessoa ou de outro animal pode provocar mudanças importantes em sua rotina e comportamento e podemos oferecer aquilo que ele mais precisa naquele momento: segurança, previsibilidade, cuidado e presença.
O animal não precisa entender o que aconteceu para sentir que alguma coisa mudou. E nós não precisamos compreender exatamente o que ele está sentindo para perceber que ele também precisa de atenção.
O luto nos lembra que nem toda dor aparece da mesma maneira, algumas pessoas choram, outras se calam, algumas procuram companhia, outras preferem ficar sozinhas. E nossos pets também podem demonstrar mudanças de maneiras diferentes. Por isso, diante de uma perda, talvez a pergunta não precise ser: “Meu pet está de luto?”
Talvez seja mais importante perguntar:
“Meu pet mudou depois dessa perda? O que ele está tentando comunicar?”
Porque quando alguém vai embora, quem fica também precisa ser cuidado. Inclusive aqueles que não conseguem dizer em palavras o quanto aquela ausência mudou sua vida.
*Julio Cesar é Médico Veterinário, especialista em Estética Animal, palestrante e terapeuta holístico.



