Por Carla Perin
@cacaperin
Um convite para olhar além da agressão e compreender o que acontece dentro da família multiespécie.
Quem convive com mais de um cão costuma dizer que eles são inseparáveis. Dormem juntos, dividem os brinquedos, caminham lado a lado e parecem compreender um ao outro sem precisar de palavras. Mas, em algumas famílias, acontece algo que ninguém espera. Depois de anos de convivência harmoniosa, esses mesmos animais passam a brigar. Às vezes, são discussões rápidas. Outras vezes, as agressões se tornam tão intensas que provocam ferimentos graves e, infelizmente, podem terminar com a morte de um deles. Quando isso acontece, a casa inteira adoece. O silêncio toma conta dos ambientes. A tristeza se mistura à culpa. E quase sempre surge a necessidade de encontrar um responsável. O cão que sobrevive passa a ser visto de forma diferente. Algumas pessoas deixam de confiar nele. Outras sentem medo. Há quem pense em doá-lo ou afastá-lo da família. Mas será que ele se tornou, de repente, um “cão mal”? Na Medicina Veterinária, sabemos que mudanças bruscas de comportamento podem estar relacionadas a diversos fatores: dor, envelhecimento, alterações hormonais, doenças neurológicas, perda da visão ou da audição, disputa por recursos ou mudanças importantes na rotina da casa. Por isso, toda agressão deve ser investigada com responsabilidade. Mas existe uma reflexão que a Medicina Veterinária Sistêmica nos convida a fazer. Nem sempre a maior pergunta é:”Quem foi o culpado? “Talvez a pergunta seja: “O que essa experiência despertou em toda a família? “Quando um conflito rompe a paz de um sistema, todos são afetados. Os tutores sofrem. Os outros animais também. E até o cão que permaneceu vivo pode carregar sinais de medo, insegurança ou tristeza. Na visão sistêmica, pertencimento é um princípio importante. Mesmo depois de um acontecimento tão doloroso, aquele animal continua pertencendo àquela história. Isso não significa ignorar os riscos, nem deixar de adotar medidas para proteger todos os envolvidos. Significa apenas lembrar que ele também é um ser vivo, com limites, emoções e necessidades que muitas vezes não conseguimos enxergar. Os cães não se expressam por palavras. Eles se comunicam pelo corpo, pelos olhares, pelas mudanças de comportamento e pelas relações que estabelecem com o ambiente. Por isso, toda mudança merece ser observada com atenção. Talvez eles não estejam tentando nos dar uma resposta. Mas certamente estão nos mostrando que algo mudou. E, antes de julgarmos, vale a pena perguntar: Olhar para um animal com curiosidade é diferente de olhar com condenação. É reconhecer que, por trás de cada comportamento, existe uma história que ainda não foi completamente compreendida. Talvez seja justamente esse um dos maiores aprendizados da convivência com os animais. Eles nos lembram, todos os dias, que compreender é muito mais transformador do que julgar. Substituímos a culpa pelo cuidado e a condenação pela compreensão.
“Antes de perguntar quem errou, talvez possamos perguntar o que mudou. Porque, na família multiespécie, todo comportamento merece ser compreendido antes de ser julgado.”
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie



