Por Alexandre Angélico
Matemático e Economista
O Brasil atravessa um momento em que dois fatores pesados se encontram: juros altos e clima extremo. Essa combinação explica por que tantas empresas estão pedindo recuperação judicial. Segundo a Serasa Experian, os pedidos cresceram mais de 20% em um ano, superando inclusive alguns períodos da pandemia. E isso preocupa o sergipano, que teme falta de produtos, remédios e impacto direto no bolso.
Os juros elevados, monitorados pelo Banco Central, encarecem o capital de giro que é o dinheiro que o varejo usa para comprar mercadorias, repor estoque e manter o negócio funcionando. Quando esse crédito fica caro, o comerciante reduz compras, adia investimentos e opera no limite. É por isso que algumas lojas fecham e outras trabalham com prateleiras mais enxutas. Não é desabastecimento generalizado, mas sim cautela forçada.
No agronegócio, o cenário é ainda mais sensível. A CNA e o INMET alertam para um possível super El Niño, capaz de reduzir chuvas e elevar temperaturas. Em Sergipe, isso afeta diretamente hortas, leite, pequenas criações e a produção de alimentos frescos. Menos chuva resulta em mais gasto com irrigação, energia e ração, o que leva a uma pressão nos preços. O produtor não quebra de um dia para o outro, mas perde margem e capacidade de reação.
Esse impacto chega à mesa do consumidor. O IBGE já mostra que alimentos in natura ficam mais caros em períodos de seca prolongada. Se o super El Niño se confirmar, o sergipano pode sentir isso no tomate, na cebola, no leite e em produtos de pequenos agricultores do interior. É um efeito em cadeia: clima ruim leva a uma produção menor, que por sua vez leva a um preço mais alto por conta da demanda.
O turismo, que sustenta boa parte da economia de Aracaju, também sente o aperto. Com o país mais cauteloso, viagens ficam mais curtas e o gasto médio cai. Hotéis da Orla, bares da Atalaia e operadores de passeios trabalham com margens menores. Se o clima extremo afetar praias, ventos ou marés, o impacto pode ser ainda maior na baixa temporada.
Para os pequenos negócios, o momento exige estratégia. Setores com baixo estoque, alta rotatividade e demanda constante tendem a resistir melhor. Alimentação, serviços essenciais, manutenção, pequenos reparos, turismo local e comércio de itens básicos são mais resilientes. Já negócios dependentes de crédito caro, grandes estoques ou clima favorável precisam de atenção redobrada.
E o que o leitor de Aracaju pode fazer? Planejar. Evitar dívidas caras, acompanhar previsões climáticas, observar preços e buscar negócios menos dependentes de crédito. Para quem empreende, o foco deve ser eficiência: reduzir custos fixos, negociar prazos e manter caixa saudável. Para quem consome, comparar preços e evitar compras por impulso é essencial.
O cenário é desafiador, mas não é um colapso. Sergipe já atravessou períodos difíceis e sempre encontrou caminhos. Informação, calma e organização continuam sendo os melhores aliados, seja para quem empreende seja para quem consome.
Alexandre Angélico
@alexandreangelico
Alexandre Angélico é Matemático e Economista formado pela USP e Mestre em Economia dos Mercados pelo Mackenzie.



