Por Valquíria Gomes da Silva
@valquiriagomes.adv
“Dra., ele não fala comigo. Manda recado pelo nosso filho. Quando fica bravo comigo, não busca a criança. Depois diz que eu estou impedindo a convivência.”
Essa é uma situação que escuto com frequência no escritório e talvez muitas mães ainda não tenham percebido que, quando um genitor coloca o filho no meio dos conflitos do casal, o problema não é apenas entre dois adultos.
A criança também está sendo atingida.
Depois da separação, é natural que existam mágoas, desentendimentos e até dificuldade de comunicação entre os pais. Mas, é importante entender que o relacionamento terminou, mas o relacionamento entre pais e filhos continua.
O problema começa quando o filho passa a ser utilizado como instrumento para atingir o outro genitor. É quando, por exemplo, ele deixa de buscar a criança porque está irritado com a mãe. É quando manda o filho transmitir recados que deveriam ser tratados diretamente entre os adultos. É quando ameaça não pagar a pensão para “dar uma lição” na mãe. É quando cria situações para provocar conflitos e depois tenta colocar sobre ela a responsabilidade pela falta de convivência.
E existe algo ainda mais preocupante: a criança começa a perceber que precisa escolher um lado ou se sentir ameaçada também.
Ela passa a carregar conflitos que não são dela. Filho não pode ser mensageiro, moeda de troca ou instrumento de vingança.
A separação encerra a relação conjugal, mas não elimina as responsabilidades parentais. Pai e mãe continuam tendo responsabilidades com os filhos, independentemente de como terminou o relacionamento.
Por isso, quando a convivência está sendo utilizada como forma de punição, é importante compreender que não se trata simplesmente de uma “briga de ex”.
Dependendo da situação, os fatos podem precisar ser documentados e levados ao conhecimento da Justiça para que o regime de convivência seja analisado e, se necessário, sejam adotadas as medidas cabíveis.
Da mesma forma, a mãe não deve simplesmente aceitar ameaças ou mudanças constantes feitas pelo genitor por medo de parecer que está dificultando a convivência.
O Direito de Família não existe para escolher um vencedor entre pai e mãe, existe para proteger direitos e, principalmente, preservar o melhor interesse da criança. Como advogada especialista em Direito de Família, uma das coisas que mais explico às mães é: você não precisa responder a cada provocação do ex.
Você precisa saber como agir diante dela porque quando a emoção toma conta, é muito fácil reagir de uma maneira que depois pode ser usada contra você.
Por isso, orientação jurídica não significa apenas saber “quem tem razão” e sim, entender quais atitudes podem proteger você e seu filho e quais podem acabar agravando o conflito.
A criança não precisa carregar a guerra dos pais, ela precisa ter o direito de ser criança. E mãe solo bem orientada juridicamente não entra no jogo do ex, ela aprende a agir com estratégia para proteger aquilo que realmente importa: o filho.



