*Por Fernanda Sepe
@fernanda.sepe
Se você já sentiu um nó no estômago ao atravessar o portão da escola, ou se já sentiu que o seu filho é “visto” mas não é “enxergado”, saiba que você não está sozinha. Eu também já estive lá, também já ouvi frases educadas que, no fundo, só queriam dizer: “O seu filho não cabe no nosso sistema”.
A verdade nua e crua é que a escola foi desenhada para uma criança que não existe: a criança “média”. Aquela que senta, ouve e reproduz. Mas o que acontece quando o seu filho é uma explosão de cores e o mundo só oferece cinza?
O aperto das caixinhas
Dói ver nossos filhos sendo empurrados para dentro de caixinhas. Se ele tem um atraso, a escola foca no que falta, como se ele fosse um quebra-cabeça incompleto. Se ela é superdotada, o sistema tenta “podar” o excesso, como se brilhar demais incomodasse a vista.
E não é só o conteúdo. É o barulho da luz fluorescente que ninguém mais ouve, mas que para ele soa como uma britadeira. É a cadeira desconfortável, o pátio barulhento, a falta de um olhar que entenda que aquele “mau comportamento” é, na verdade, um pedido de socorro. É um campo minado onde cada passo em falso do nosso filho é lido como falta de limites, e cada vitória nossa é vista como “exigência de mãe chata”.
E muitas vezes não é o limite, o respeito que falta, mas a imposição de regras e limitações que não fazem sentido, é a imaginação nascendo, a infância pulsando forte, a vontade de descobrir o novo e explorar o novo que não cabe mais dentro deles.
A engrenagem de carne e osso
Nesse caos, a gente descobre uma força que nem sabia que tinha. A escola não vai mudar amanhã, mas o nosso filho precisa de nós hoje. É aí que a gente percebe: nós somos a única peça que não pode falhar.
Nós somos a engrenagem central. Se a gente trava, tudo para. Mas ser esse centro é exaustivo. É ter que ser o equilíbrio quando o mundo lá fora é turbulência. É ter que ser a voz que defende, mas também o ouvido que acolhe o choro dele (e o nosso, escondido).
Ser essa voz ativa não é sobre brigar; é sobre não aceitar que apaguem a luz de quem a gente mais ama. É saber que, muitas vezes, nós seremos os únicos a acreditar que ele consegue, enquanto os outros conseguem pensar que ele não atende as expectativas que eles criaram.
O segredo que ninguém te conta
O que eu aprendi, com quatro filhos e muitas batalhas, é que a gente não precisa dar conta de tudo sozinha, mas precisa estar no comando. O sistema é falho, as paredes são rígidas e o caminho é difícil, sim. Mas quando a gente assume esse lugar de centro — com amor, com escuta e, principalmente, com a certeza de que conhecemos nossos filhos melhor do que qualquer especialista — a gente começa a abrir trilhas na mata fechada.
Não aceite que o sistema defina o teto do seu filho, pois ele não conhece o sorriso dele quando ele finalmente aprende algo novo. O sistema não sente o peso da mão dele na sua.
A escola pode não estar pronta, mas nós estamos. Pelo amor, pela dor e pela nossa teimosia em não deixar ninguém para trás. Estamos juntas nessa?
* Fernanda Sepe é especialista em desenvolvimento infantil e educação, atuando como neuropsicopedagoga clínica e institucional e analista do comportamento. Também é professora de cursos de pós-graduação e orientadora parental, além de mãe de 4 filhos típicos e atípicos.



