Por Eneida Roberta Bonanza
Existe algo de profundamente emocional nas festas juninas. Talvez porque elas nunca tenham sido apenas festas.
No Nordeste, o São João é encontro. É pertencimento. É identidade cultural. É o cheiro da lenha queimando, o milho cozido na panela, o amendoim torrado, o som da sanfona atravessando a noite e a sensação de que, por alguns dias, a vida desacelera para celebrar aquilo que realmente importa: os vínculos.
A tradição das festas juninas chegou ao Brasil trazida pelos portugueses, que já celebravam os santos populares na Europa, especialmente São João, Santo Antônio e São Pedro. Ao encontrar a riqueza cultural brasileira, principalmente a nordestina, essa celebração ganhou novas cores, sabores e significados. O que era uma festa religiosa tornou-se também uma manifestação afetiva, familiar e comunitária.
Não é por acaso que tantas pessoas aguardam o mês de junho com tanta emoção.
O cérebro humano não armazena apenas fatos. Ele registra experiências associadas a emoções, sons, aromas, sabores e sensações corporais. É por isso que, décadas depois, uma simples música de Luiz Gonzaga, o cheiro de canjica ou o sabor de um licor artesanal podem transportar alguém instantaneamente para uma lembrança da infância.
A neurociência chama isso de memória associativa.
Quando vivemos experiências emocionalmente marcantes, estruturas cerebrais como a amígdala e o hipocampo trabalham juntas registrando não apenas o acontecimento, mas também todo o contexto sensorial ao seu redor. O cérebro cria conexões. E, no futuro, qualquer elemento semelhante pode reativar aquele registro.
É assim que surgem muitos gatilhos emocionais.
Uma pessoa pode sentir uma tristeza inexplicável ao ouvir uma música junina sem perceber que aquela canção tocava nos últimos São Joões vividos ao lado de alguém que já partiu.
Outra pode experimentar ansiedade ao participar de uma reunião familiar sem compreender que seu sistema nervoso ainda associa encontros familiares a antigas tensões, críticas ou conflitos vividos anos atrás.
O gatilho raramente é o problema.
Ele é apenas a porta de entrada para uma memória emocional que permanece ativa.
Por trás do cheiro do milho assado pode existir a lembrança da avó que preparava a mesa.
Por trás de uma quadrilha pode existir a memória de uma infância feliz.
Mas também pode existir a recordação de ausências, separações, rejeições ou conflitos que nunca foram verdadeiramente elaborados.
Por isso, as festas familiares costumam ser tão intensas emocionalmente.
Elas reúnem pessoas, mas também reúnem memórias.
Sentamos à mesa com quem está presente, mas muitas vezes carregamos conosco versões antigas de nós mesmos, experiências passadas e emoções que ainda não encontraram um lugar seguro para serem processadas.
A maturidade emocional não consiste em apagar essas memórias.
Consiste em permitir que elas sejam ressignificadas.
Quando olhamos para nossa história com mais consciência, deixamos de reagir automaticamente aos gatilhos e passamos a compreender o que eles estão tentando nos mostrar.
Aquele desconforto não surgiu hoje.
Aquela tristeza não nasceu nesta festa.
Aquela irritação talvez não tenha relação com a conversa atual.
Frequentemente, estamos respondendo a experiências que ficaram registradas em nosso mundo interno muito antes do momento presente.
Por isso, junho também pode ser um convite terapêutico.
Um convite para observar quais emoções surgem.
Quais lembranças aparecem.
Quais ausências ainda doem.
Quais histórias ainda precisam ser acolhidas.
Porque quando uma memória é integrada, ela deixa de comandar nossas reações.
Ela passa a fazer parte da nossa história sem determinar o nosso presente.
Que possamos celebrar nossas raízes, honrar aqueles que vieram antes de nós, reconhecer nossas dores e permitir que cada novo São João seja vivido como uma experiência única.
Não como a repetição das festas passadas.
Mas como a oportunidade de criar novas memórias, mais leves, mais conscientes e mais amorosas.
Porque a vida acontece agora.
E toda festa merece a chance de ser vivida no tempo presente.
Sobre a autora
Eneida Roberta Bonanza é fisioterapeuta, especialista em abordagens integrativas da saúde, escritora e fundadora da CHER – Clínica de Saúde Humanizada. Atua no estudo das relações entre corpo, emoções, memória e comportamento humano, auxiliando pessoas a compreenderem as raízes emocionais dos seus sintomas e a construírem caminhos de transformação e autoconsciência.



