Por Erika Ricci
Nem sempre o sofrimento aparece em palavras. Às vezes, ele surge no silêncio, no isolamento, na irritação ou em mudanças que os adultos confundem com “uma fase”.
Quando pensamos no Setembro Amarelo, é comum associarmos a campanha ao sofrimento emocional dos adultos. No entanto, crianças e adolescentes também podem enfrentar dores profundas, mesmo quando ainda não conseguem compreender ou explicar o que estão sentindo. Por isso, falar sobre prevenção nessa fase da vida exige atenção, responsabilidade e, principalmente, disponibilidade para escutar.
Nem sempre uma criança dirá: “Eu não estou bem”. Ela pode começar a apresentar dores frequentes sem uma causa médica definida, alterações no sono ou no apetite, queda no rendimento escolar, irritabilidade, choro, medo excessivo, isolamento ou perda do interesse por atividades que antes lhe davam prazer. Nos adolescentes, o sofrimento também pode aparecer por meio de afastamento da família e dos amigos, abandono do autocuidado, desesperança, uso de álcool ou outras substâncias, comportamentos de risco, automutilação e falas relacionadas à morte, ao desaparecimento ou à sensação de ser um peso para os outros.
É importante lembrar que nenhum desses sinais, observado isoladamente, confirma que exista um risco. Crianças e adolescentes passam por mudanças e podem apresentar oscilações emocionais. O que precisa chamar a atenção é a intensidade, a frequência, a duração e, principalmente, a presença de várias mudanças ao mesmo tempo. Quando o comportamento se transforma de maneira significativa, é necessário aproximar-se, conversar e investigar o que pode estar acontecendo.
Um dos maiores obstáculos à prevenção ainda é a desvalorização do sofrimento. Frases como “isso é falta do que fazer”, “na sua idade eu não tinha tempo para ficar triste”, “você tem tudo” ou “isso é só para chamar atenção” podem fazer com que a criança ou o adolescente se cale ainda mais. Mesmo quando um comportamento parece uma tentativa de chamar atenção, precisamos nos perguntar: por que essa pessoa está precisando pedir atenção dessa maneira? Todo pedido de ajuda merece ser acolhido.
Escutar não significa ter todas as respostas. Muitas vezes, o que uma criança ou um adolescente mais precisa é encontrar um adulto capaz de permanecer ao seu lado sem interromper, comparar, minimizar ou transformar imediatamente a conversa em uma bronca. Perguntas simples podem abrir um espaço importante: “Eu percebi que você está diferente. Quer me contar o que está acontecendo?”, “Como posso ajudar?” ou “Você tem se sentido tão mal a ponto de pensar que não gostaria mais de estar aqui?”.
Falar diretamente sobre pensamentos de morte ou suicídio não coloca essa ideia na cabeça de alguém. Ao contrário, uma pergunta feita com cuidado pode permitir que um sofrimento escondido finalmente seja revelado. Se houver alguma fala sobre desejo de morrer, desaparecer, não acordar ou machucar a si mesmo, ela deve ser levada a sério, mesmo que seja dita em tom de brincadeira ou durante uma discussão.
Nessas situações, o adulto não deve deixar a criança ou o adolescente sozinho, prometer guardar segredo ou tentar resolver tudo apenas dentro de casa. É necessário buscar ajuda profissional e compartilhar a situação com outros adultos responsáveis pelo cuidado. Dependendo do grau de risco, a avaliação deve ser imediata.
A prevenção também precisa acontecer antes da crise. Ela é construída nas conversas cotidianas, no vínculo familiar, no acolhimento das emoções, na proteção contra violências, no acompanhamento da vida escolar e digital e na possibilidade de pedir ajuda sem medo de punição. Família, escola e profissionais precisam trabalhar em parceria, porque uma criança não deve carregar sozinha aquilo que nem mesmo os adultos conseguiriam suportar sem apoio.
O Setembro Amarelo não deve ser apenas um mês de frases bonitas ou laços amarelos. Ele precisa nos ensinar a perceber aquilo que não está sendo dito. Por trás de um comportamento difícil, de uma queda nas notas, de uma irritação constante ou de um isolamento repentino, pode existir alguém tentando sobreviver a uma dor que ainda não consegue nomear.
Cuidar da saúde emocional de crianças e adolescentes é ajudá-los a compreender que sentimentos podem ser conversados, que pedir ajuda não é fraqueza e que nenhum sofrimento precisa ser enfrentado sozinho. Mais do que perguntar “Por que você está fazendo isso?”, talvez precisemos começar perguntando: “O que aconteceu com você e como eu posso estar ao seu lado?”.
Quando uma criança ou um adolescente encontra um adulto disposto a perceber, escutar e agir, o silêncio deixa de ser um lugar de solidão e pode se transformar no começo do cuidado.
Em situações de risco imediato, procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou acione o SAMU pelo telefone 192. O CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo número 188, durante 24 horas. Também é possível buscar acolhimento e acompanhamento nas Unidades Básicas de Saúde e nos CAPS.



