Por Erika Ricci
Quando um casal se separa, o desafio não é aprender a continuar sendo pai e mãe.
A separação encerra uma relação conjugal, mas não encerra a história familiar de uma criança. Para os adultos, pode existir ex-marido, ex-esposa, ex-companheiro ou ex-companheira. Para um filho, porém, continuam existindo pai e mãe. E compreender essa diferença talvez seja um dos maiores desafios depois do fim de um relacionamento.
É natural que uma separação venha acompanhada de sentimentos intensos. Mágoa, raiva, frustração, medo, sensação de injustiça e até desejo de nunca mais precisar conviver com aquela pessoa podem fazer parte desse processo. O problema começa quando a criança passa a ocupar um lugar que não lhe pertence dentro dessa dor.
Isso acontece de maneiras muito mais sutis do que imaginamos. Quando um filho é usado para levar recados, quando precisa ouvir críticas sobre o outro genitor, quando é interrogado ao voltar da outra casa, quando percebe um semblante diferente ao contar que se divertiu com o pai ou com a mãe, ou quando sente que precisa escolher de que lado ficar, ele começa a carregar um conflito que pertence aos adultos.
E talvez ele nunca diga: “Estou me sentindo dividido”.
A criança pode simplesmente parar de contar algumas coisas. Pode dizer que não gostou de um passeio do qual, na verdade, gostou muito. Pode esconder o carinho que sente. Pode começar a medir suas palavras dependendo da casa em que está. Pode defender excessivamente um dos pais ou rejeitar o outro. Em alguns casos, pode acreditar que precisa cuidar emocionalmente daquele adulto que parece estar sofrendo mais.
Aos poucos, amar deixa de ser algo espontâneo e passa a exigir cautela.
Não faça seu filho acreditar que amar o outro genitor é uma forma de trair você.
Uma criança deveria ter liberdade emocional para amar. Poder sentir saudade da mãe quando está com o pai e saudade do pai quando está com a mãe. Poder voltar feliz de um final de semana sem precisar esconder o sorriso. Poder receber carinho dos dois sem acreditar que está escolhendo um lado.
Isso não significa romantizar separações, ignorar conflitos ou exigir uma convivência impossível entre adultos. Muito menos significa defender contato irrestrito quando existem situações de violência, abuso, negligência ou risco. Nesses casos, a proteção da criança precisa estar em primeiro lugar, com as medidas profissionais e legais adequadas.
Mas existe uma diferença importante entre proteger uma criança de um risco real e envolvê-la na dor existente entre dois adultos.
Mesmo quando existe conflito, é possível preservar lugares. Questões financeiras, processos judiciais, traições, ressentimentos e detalhes da relação conjugal não deveriam ser entregues aos filhos como se eles tivessem maturidade emocional para compreendê-los — muito menos para decidir quem está certo.
Seu filho não precisa conhecer todos os motivos pelos quais vocês deixaram de se amar. Ele precisa saber que continua sendo amado.
E há algo que considero especialmente importante: uma separação não precisa determinar, sozinha, o futuro emocional de uma criança. O modo como os adultos conduzem esse processo faz diferença. Quando os pais conseguem separar conjugalidade de parentalidade, preservar a criança dos conflitos e construir alguma previsibilidade entre as duas casas, oferecem a ela uma mensagem poderosa: algumas relações podem terminar sem que o amor que sustenta outras relações precise terminar junto.
Nem sempre os pais conseguirão fazer isso sozinhos. Existem separações tão dolorosas e conflitos tão intensos que conversar sobre qualquer assunto relacionado aos filhos parece impossível. Nesses momentos, buscar orientação não é sinal de fracasso. A orientação parental e o acompanhamento psicológico podem ajudar os adultos a reorganizar funções, estabelecer limites e, principalmente, perceber quando o sofrimento conjugal está atravessando a experiência emocional dos filhos.
Porque, depois de uma separação, talvez a pergunta mais importante deixe de ser “quem venceu essa disputa?” e passe a ser:
“O que nosso filho precisa de nós agora?”
O casamento pode ter terminado. Os planos do casal podem ter mudado. Duas casas podem ter surgido onde antes existia apenas uma. Mas seu filho continua precisando ter permissão para ser filho.
– Sem ser mensageiro.
– Sem ser juiz.
– Sem ser confidente.
– Sem ser terapeuta.
– Sem precisar escolher.
O casal terminou. A parentalidade continua.
E, quando os adultos conseguem compreender essa diferença, a criança deixa de carregar nas costas uma separação que nunca foi responsabilidade dela.
Érika Ricci – Psicóloga Clínica
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