Por Charles Pires
Existe uma pergunta desconfortável que talvez devêssemos fazer de vez em quando: se ninguém pudesse ver aquilo que conquistamos, ainda desejaríamos as mesmas coisas?
Imagine que ninguém soubesse qual carro você dirige, quanto ganha, onde trabalha, quantos seguidores possui ou para onde viajou. Imagine que suas conquistas não pudessem ser publicadas, comentadas ou admiradas.
O que ainda seria importante para você?
A pergunta não pretende condenar o desejo de reconhecimento. Gostamos de ser valorizados. Ficamos felizes quando alguém reconhece nosso trabalho e, muitas vezes, o olhar do outro participa da construção daquilo que pensamos sobre nós mesmos.
O problema começa quando deixamos de buscar algo porque aquilo faz sentido e passamos a buscá-lo para provar alguma coisa.
Provar que vencemos. Que somos capazes. Que não somos mais aquela pessoa que alguém um dia desprezou. Que conseguimos chegar mais longe do que esperavam. Que merecemos respeito.
E talvez algumas das maiores corridas da vida aconteçam sem que percebamos que estamos competindo.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, entendemos que nossas experiências contribuem para a construção de crenças sobre nós mesmos e sobre o mundo. Uma pessoa que, ao longo da vida, aprendeu a associar seu valor ao desempenho pode começar a acreditar que precisa produzir, conquistar ou se destacar para se sentir suficiente.
A conquista, então, deixa de ser apenas uma conquista.
Ela se transforma em uma espécie de prova.
Se sou reconhecido, tenho valor. Se fracasso, algo parece estar errado comigo.
Essa lógica pode ser perigosa porque cria uma meta que nunca termina. Afinal, sempre existirá alguma coisa a mais para conquistar e alguém diante de quem ainda sentimos necessidade de provar nosso valor.
É como construir uma casa pensando apenas em quem passa pela rua. Escolhemos a fachada mais bonita, cuidamos do jardim, colocamos iluminação para que todos possam admirá-la. As pessoas passam e dizem: “Que casa maravilhosa”.
Mas ninguém pergunta se gostamos de morar dentro dela.
Talvez façamos isso com a própria vida.
Construímos uma existência admirável por fora e, algumas vezes, pouco habitável por dentro.
Trabalhamos além do limite porque precisamos demonstrar competência. Compramos coisas que pouco acrescentam porque elas representam sucesso. Permanecemos em determinados lugares porque sair poderia parecer fracasso. Temos dificuldade de admitir que mudamos de opinião porque sentimos que precisamos continuar provando que estávamos certos.
Até o desejo de vencer pode esconder uma pergunta muito mais íntima:
“Quando eu chegar lá, finalmente vou me sentir suficiente?”
Talvez sim, por algum tempo.
Mas quando nosso valor depende exclusivamente daquilo que conseguimos provar, a sensação costuma durar pouco. Uma conquista rapidamente deixa de ser extraordinária e passa a ser normal. Então precisamos da próxima.
Não significa que devemos abandonar metas, dinheiro, crescimento profissional ou reconhecimento. Ambição não é necessariamente um problema. O ponto é compreender o que está alimentando nossas escolhas.
Existe uma diferença entre correr em direção a alguma coisa e correr para longe de alguma coisa.
Duas pessoas podem buscar exatamente o mesmo objetivo por razões completamente diferentes. Uma pode desejar crescer porque aquilo está alinhado aos seus valores e projetos. Outra pode buscar o mesmo crescimento tentando compensar uma antiga sensação de inferioridade.
Por fora, as duas estão correndo.
Por dentro, talvez estejam fazendo viagens completamente diferentes.
Por isso, algumas perguntas podem ser importantes: Eu realmente quero isso ou quero o que isso representa? Se ninguém soubesse dessa conquista, ela ainda teria valor para mim? Estou construindo uma vida que desejo viver ou uma vida que desejo mostrar?
Não são perguntas para abandonar nossos sonhos. São perguntas para descobrir quais sonhos realmente são nossos.
Talvez amadurecer seja perceber que nem toda conquista precisa de plateia e que algumas das maiores vitórias da vida sequer aparecem em fotografias.
Aprender a colocar limites. Reconstruir uma relação. Ter coragem de pedir ajuda. Dormir com a consciência tranquila. Conseguir estar presente com quem amamos. Superar algo que durante anos ninguém soube que estávamos enfrentando.
Existem vitórias que não impressionam uma sala cheia de pessoas, mas transformam profundamente quem as vive.
Talvez você ainda queira chegar longe. Queira crescer, conquistar, ser reconhecido e construir algo importante. Não existe nada de errado nisso.
Apenas certifique-se, de vez em quando, de que ainda reconhece a pessoa que está fazendo essa caminhada.
Porque podemos passar muitos anos tentando mostrar ao mundo que vencemos e, quando finalmente conseguimos, descobrir que nunca perguntamos a nós mesmos o que significava vencer.
No fim, talvez uma vida bem vivida não seja aquela que consegue provar alguma coisa para todo mundo.
Talvez seja aquela em que já não precisamos provar nosso valor para conseguir reconhecê-lo.
Por Charles Audrei Batista Pires – Terapeuta, Palestrante, Empresário, Escritor e Compositor.
Agendamentos de Sessão: (14) 99161-9189 – Instagram @charlespiresterapeuta

