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A mãe boa demais: quando proteger os filhos pode impedir que eles cresçam

admin por admin
4 setembro , 2026
em Destaques, Relacionamento Interpessoal, Últimas Notícias
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A mãe boa demais: quando proteger os filhos pode impedir que eles cresçam

Por Bia Rossatti

@biarossattiterapeuta

 

Como terapeuta familiar, sempre recebo famílias que têm dificuldade de confiar nos filhos e permitir que eles construam autonomia e uma existência própria. E isso, muitas vezes, acaba se transformando em conflitos.

É uma situação mais comum do que parece. A mãe quer ajudar. Quer evitar sofrimento. Quer impedir que o filho erre. Quer poupá-lo das dores que ela mesma já conheceu. E, sem perceber, começa a fazer pelo filho aquilo que ele já poderia estar aprendendo a fazer sozinho.

Decide por ele. Interfere em seus relacionamentos. Resolve seus problemas. Opina sobre suas escolhas. Tenta antecipar as consequências. Tudo isso pode nascer do amor. Mas ela não percebe quando o cuidado deixa de ser proteção e começa a impedir o crescimento.

Talvez a maternidade madura comece justamente quando a mãe consegue trocar a pergunta “Como posso protegê-lo?” por outra, mais difícil: “Como posso ajudá-lo a confiar em si mesmo?” É sobre isso que penso quando trabalho com o conto de Vasalisa, uma narrativa que costumo utilizar em sessões por sua riqueza simbólica.

 

A menina, a mãe e a boneca

No conto, Vasalisa é ainda uma menina quando sua mãe, gravemente enferma, percebe que está próxima da morte. Antes de partir, ela entrega à filha uma pequena boneca. E deixa uma orientação: se Vasalisa estiver perdida ou precisar de ajuda, deverá consultar a boneca; também deverá alimentá-la e cuidar dela.

Depois disso, a mãe morre. Essa passagem é fundamental. Porque a mãe não deixa para a filha um manual sobre como viver. Ela não diz: “Faça exatamente isso.” “Não faça aquilo.” “Eu vou resolver para você.”

Ela entrega à filha uma referência interna. Uma espécie de sabedoria que Vasalisa poderá consultar quando estiver diante do desconhecido. E então a vida coloca Vasalisa diante daquilo que nenhuma mãe consegue evitar para sempre: a floresta.

Toda criança precisa, em algum momento, entrar na floresta. Depois da morte da mãe, Vasalisa passa a viver com a madrasta e suas duas filhas, que a maltratam. Até que, em determinado momento, mandam que ela entre sozinha na floresta para procurar fogo com Baba Yaga.

A floresta é escura. Ela sente medo. Não sabe exatamente para onde ir. Mas carrega consigo a boneca que recebeu da mãe. E é justamente aí que começa uma das imagens mais bonitas do conto.

A cada bifurcação, Vasalisa consulta a boneca. “Para que lado devo ir?” A boneca a orienta. Ela segue. E continua caminhando. Perceba a diferença: a mãe não está mais fisicamente ao lado dela.

Mas algo da mãe foi internalizado. A menina não ficou sem direção. Ela começou a construir dentro de si uma capacidade de orientação. É isso que, muitas vezes, queremos fazer na terapia familiar: ajudar a família a transformar uma relação baseada em dependência e controle em uma relação baseada em vínculo e autonomia. Porque autonomia não significa ausência de vínculo. Significa poder existir como alguém diferente.

 

O problema da mãe boa demais

Existe uma mãe que cuida tanto que acaba ocupando todos os espaços. Ela sabe o que o filho deve fazer. Sabe qual faculdade escolher. Sabe qual relacionamento é bom. Sabe quando ele deve terminar. Sabe como ele deveria educar os próprios filhos. Sabe quanto deve gastar. Sabe o que deve aceitar. E, principalmente, acredita que sabe porque ama.

Mas há uma questão delicada: ser necessário pode se tornar uma necessidade da própria mãe. Enquanto o filho precisa dela, ela sabe qual é o seu lugar. Quando ele cresce, entretanto, começa uma nova etapa.

E essa etapa exige da mãe uma capacidade que nem sempre foi ensinada: deixar de conduzir para começar a confiar.Isso pode ser muito difícil. Porque confiar significa aceitar que o filho pode escolher diferente. Pode errar. Pode sofrer. Pode tomar uma decisão que ela não tomaria. E, ainda assim, continuar sendo capaz de viver sua própria vida.

 

O que Vasalisa aprende na floresta

Vasalisa não recebe da boneca uma vida sem dificuldades. Ela precisa encontrar Baba Yaga – no conto uma bruxa! Precisa realizar tarefas difíceis. Precisa lidar com o medo. Precisa observar. Precisa perguntar. Precisa discernir.

Em determinado momento, inclusive, ela aprende que não precisa saber tudo. Quando Baba Yaga lhe oferece a oportunidade de fazer mais perguntas, Vasalisa escuta sua intuição e escolhe não avançar. Depois, quando perguntada sobre como conseguiu agir com tanta sabedoria, responde que foi a bênção de sua mãe.

É uma passagem preciosa. Porque a bênção da mãe não aparece como controle sobre a filha. Aparece como uma força que a filha carrega consigo. Essa é uma diferença enorme.

 

O feminino saudável não cria dependência

É aqui que podemos aproximar Vasalisa da perspectiva junguiana. No material sobre Jung que utilizo como referência, a individuação aparece como um processo de desenvolvimento no qual a pessoa integra diferentes dimensões da própria psique e preserva sua autonomia.

E os contos de fadas podem ser compreendidos justamente como imagens simbólicas de processos psíquicos. O material destaca que os arquétipos aparecem, entre outras formas, nos mitos e contos de fadas e que essas imagens podem ganhar novos significados quando se tornam conscientes.

É nesse ponto que penso no feminino saudável.Não como um feminino que simplesmente cuida de todos e, muitas vezes esquece de si mesma. Mas como aquele que consegue integrar cuidado e limite, acolhimento e autonomia, vínculo e separação.

A mãe saudável não precisa deixar de cuidar. Ela precisa aprender quando o cuidado já não é mais fazer pelo outro. Às vezes, cuidar é escutar. Às vezes, é orientar. Às vezes, é dizer não. E, em outras situações, é simplesmente permanecer disponível enquanto o outro tenta.

Mesmo que tente errado. Mesmo que caia. Mesmo que escolha um caminho que nós não escolheríamos.

 

O filho precisa sair do lugar de filho

Nas famílias que chegam à terapia, muitas vezes encontramos uma dificuldade silenciosa: a família cresceu, mas os papéis emocionais não cresceram junto.

O filho continua sendo tratado como criança. A mãe continua decidindo. O pai continua tentando proteger. E o adulto que está diante deles precisa lutar para conquistar um espaço que deveria poder ocupar naturalmente: o espaço de sujeito da própria vida.

Isso não significa que os pais deixem de ter importância. Ao contrário. Um vínculo familiar saudável não desaparece quando os filhos conquistam autonomia. Ele se transforma. A relação deixa de ser: “Eu sei o que é melhor para você.” E pode passar a ser: “Eu posso não concordar com sua escolha, mas reconheço que ela é sua.”

Essa talvez seja uma das formas mais maduras de amor.

 

E a mãe? Quem ela é quando o filho cresce?

Essa pergunta também precisa ser feita. Porque, muitas vezes, quando um filho conquista autonomia, a mãe precisa reconstruir uma parte da própria identidade.

Se durante muitos anos sua existência esteve organizada em torno do cuidado, o crescimento dos filhos pode provocar um vazio. E esse vazio pode ser preenchido, inconscientemente, por novas formas de interferência.

“Ele não me procura mais.” “Ela mudou depois que começou esse relacionamento.” “Eu faço tudo por ele e ele não reconhece.” “Ela não aceita mais meus conselhos.” Talvez seja necessário olhar para além da reclamação.

E perguntar: “O que essa mãe perdeu quando o filho começou a ganhar autonomia?” Porque algumas vezes o conflito não está apenas no comportamento do filho. Está no processo de separação que a mãe ainda não conseguiu elaborar.

 

A verdadeira herança de uma mãe

É por isso que volto tantas vezes a Vasalisa. A mãe não consegue acompanhar a filha pela floresta. E talvez essa seja justamente a beleza da narrativa. Ela não acompanha. Ela prepara.

Vasalisa precisa entrar na floresta. Precisa enfrentar Baba Yaga. Precisa descobrir seus próprios recursos. Precisa aprender a discernir. Precisa voltar diferente. E a boneca representa essa ligação com uma sabedoria que, aos poucos, deixa de ser algo externo e passa a fazer parte dela. O conto mostra Vasalisa consultando essa pequena figura diante das bifurcações e seguindo suas orientações durante a travessia.

Talvez seja isso que uma boa maternidade faça. Não prepara o filho para precisar da mãe para sempre. Prepara-o para conseguir caminhar quando a mãe não estiver ao lado. Por isso, talvez a pergunta mais profunda da maternidade não seja: “Como faço para que meu filho não sofra?” Mas: “Como posso ajudá-lo a desenvolver recursos para atravessar aquilo que eu não poderei atravessar por ele?”

Essa mudança de pergunta transforma a maternidade. Porque o objetivo não é criar filhos que nunca precisem de nós. É criar filhos que saibam que podem contar conosco sem precisar deixar de ser quem são.

 

Amar também é permitir que o outro exista

Como terapeuta familiar, vejo diariamente que muitos conflitos entre pais e filhos adultos não acontecem porque falta amor. Às vezes, acontecem justamente porque há amor sem espaço suficiente para a diferença.

Há cuidado sem autonomia. Há proteção sem confiança. Há presença sem separação. E existe uma diferença fundamental entre pertencer a uma família e pertencer à vida do outro.

Seu filho pertence à sua história. Mas a vida dele não pertence a você. Sua filha pode carregar valores que recebeu de você, pode levar sua voz, seus ensinamentos, seus gestos e até suas feridas. Mas ela precisa descobrir o que fará com tudo isso. Como Vasalisa, ela precisará entrar em suas próprias florestas.

Encontrará seus medos. Tomará decisões. Encontrará suas Baba Yagas. Terá noites escuras. E precisará descobrir o próprio fogo. A mãe pode oferecer raízes. Mas não pode viver as raízes e as asas do filho por ele.

Talvez a maternidade madura seja justamente essa passagem: primeiro, eu faço por você. Depois, eu faço com você. Então, eu caminho ao seu lado. E, finalmente, eu confio que você pode caminhar sozinho.

Não porque eu deixei de ser sua mãe. Mas porque você se tornou você. 

E talvez essa seja uma das maiores expressões do feminino saudável: amar profundamente sem impedir a existência do outro.

No fim, Vasalisa não precisava levar a mãe consigo para atravessar a floresta. Ela precisava descobrir que a bênção da mãe já vivia dentro dela. E talvez seja isso que nossos filhos mais precisem receber de nós: não a promessa de que estaremos sempre ali para abrir o caminho, mas a confiança necessária para que, quando chegar a hora, eles tenham coragem de abrir o próprio.

Vasalisa- a boneca deixada pela mãe para a filha, antes de morrer para a filha pequena precisou entrar na floresta. Precisou encontrar a Baba Yaga, enfrentar o desconhecido e descobrir que carregava dentro de si uma orientação que não dependia mais da presença da mãe.

Sua mãe não lhe deixou um caminho pronto. Deixou-lhe uma bússola.

Talvez seja essa a grande diferença entre uma mãe que protege e uma mãe que impede de crescer. A primeira oferece raízes. A segunda, ainda que por amor, tenta controlar o vento.

O feminino saudável não é aquele que cuida de todos o tempo inteiro. É aquele que sabe quando nutrir, quando acolher, quando colocar limites e, principalmente, quando sair um pouco de cena para que o outro possa encontrar a própria força.

Porque chega um momento em que amar o filho não é mais fazer por ele.

É confiar nele. É suportar vê-lo errar sem correr imediatamente para consertar. É respeitar escolhas que talvez você não faria. É permitir que ele viva as consequências de suas decisões. E é também olhar para a própria vida e perguntar: “Quem sou eu agora que meu filho cresceu?”

Essa pergunta pode abrir uma nova jornada. A mãe que deixa o filho crescer não perde sua importância. Ela transforma sua importância. Deixa de ser aquela que sabe todas as respostas e passa a ser aquela que oferece presença, escuta e amor — sem precisar dirigir a vida do outro.

Talvez esse seja um dos movimentos mais profundos do feminino saudável: amar sem possuir, cuidar sem controlar e permanecer sem impedir o outro de partir. Porque filhos precisam de mães que lhes deem raízes. Mas, para viverem a própria história, também precisam saber que podem sair de casa levando consigo uma voz interior que diz: “Você pode confiar em si.”

E talvez seja isso que uma mãe possa deixar de mais precioso para um filho. Não um caminho sem perigos. Mas a certeza de que, mesmo quando a floresta aparecer, ele terá dentro de si recursos para atravessá-la.

 

 

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